sábado, 19 de dezembro de 2009

À Condição Humana (para René Magritte)

Self-portrait, Magritte, 1923.

As obras de Magritte sempre me colocaram em contato com uma condição humana: a de ser uma tentativa de vida, uma interrogação, um abismo, uma seta apontada para um caos vertiginoso e ao mesmo tempo uma promessa. Mergulhada nessas dimensões me arrisquei a traçar uma rota no ar e daí me vi escrevendo o poema para Magritte, que eu ainda não sei e que eu ainda devo reescrever, pois para mim nada está tão acabado, nada persiste, pois as rotas são elípticas e podem nos levar para lugares improváveis e versos imprevistos...


"À Condição Humana" (para René Magritte)

Do ovo o ar-
tista prima
a matéria pura e fina
imitar.
Do que envolve a vida
o plano da asa agita
a oblíqua humana condição
e grita
do retrato o traço
e arrisca
no ar
o ar-
tista.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Por linhas oblíquas

"A incerteza do poeta", De Chirico, 1913.


Acabei deixando pra trás há algum tempo: minhas reflexões sobre poesia, traços que fiz para as aulas, textos sem finalidade aparente, que vieram à mercê do desejo de manifestarem uma voz - a minha - no espaço - o mundo das outras vozes. Encontrei algumas linhas que tracei ao longo do tempo e achei que seria melhor começar por elas. Linhas oblíquas, pra me salvaguardar dos traçados retilíneos e dos equivocados. Enfim!


“O que a poesia ensina é apenas um modo de ver.” Eis uma das frases de Carlos Felipe Moisés, um poeta e crítico literário que conheço e respeito muito e que me faz pensar. A frase está em seu livro Poesia & Utopia: sobre a função social da poesia e do poeta. São Paulo: Escrituras, 2007. P. 15, para quem quiser ler. Aquilo que entrevejo na expressão destacada - “um modo de ver” - traz-me o modo de ver que a poesia me ensinou e ensina a cada vez que me debruço sobre ela, a cada vez que ouso ler sua alma. Parece que seu ser fugidio sempre termina por evitar a aproximação analítica, pois a fruição é algo que não combina com um pensamento racional atormentado pela sistemática do conhecimento que mensura o mundo e o cataloga. A poesia não se presta a isso e se recusa.


Outra coisa ocorre ao tentar aproximar-me. A poesia desentranha o mundo, rabisca-o, rasura-o, torna-o fresta e aresta, ascensão e queda. O mundo não é mais o mundo quando a poesia o arrasta para um cá e um lá, para um dentro e um fora do sujeito. O mundo não é mais o mundo quando a poesia antropofagicamente o devora.


Talvez a porta de entrada para a poesia e que nos leva para aquilo que a própria revela seja a imagem.


Imagem que é difícil precisar, que emerge do encontro entre as palavras e os sentidos, que nascem, por sua vez, do encontro fonomorfosintático das palavras no poema, que se buscam e se repelem de qualquer tentativa sinistra de retorno ao universo do pragmatismo do discurso. A imagem está no intervalo entre um lá e um cá do discurso. Enquanto escrevo por aqui, abro o livro A Espreita (2008), de Sebastião Uchoa Leite, e lá encontro um poema que me parece se situar nessa dimensão da palavra no poema e a criação de um "oco" para onde tudo se projeta e retorna na leitura: "Focos".

Poesia é a sombra

Em guarda atrás de alguém

Ou na frente

Abrindo o caminho

Diminui ou alonga o vulto

Conforme o foco solar

Abre-se ou estreita-se

No jogo hiperrealista

Entre o eu e a margem




sábado, 5 de dezembro de 2009

Semitons

Metade de mim evapora
a outra permanece
tua nódoa
perfume que retorna
fogo-fátuo
memória.

domingo, 29 de novembro de 2009

Saídas de emergência

Menina quando cresce
esparrama pelo chão
o não
pise na grama
o não
fale com o motorista
o não
fume.
Reclamações:
vide bula.


Menina quando cresce
entontece
este lado para baixo.
Seu assento preferencial dispara
portas automáticas
levemente agitadas
antes de usar.

sábado, 21 de novembro de 2009

Mulheres em curvas
derramam-se em carnes
volumes de tempo
nódulos de nuncas
excessos
de si mesmas.


Nas suas bastanças
ondulam olhares
humores de chuva
ao sol quente
das carnes.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Amantes

Ah os amantes!
Lânguidos piedosos devotos
(de si mesmos)
entregues ao abandono
(suas venéreas e áureas presas).


Como espelhos se devoram
no infinito de suas imagens
(retina de seus humores).

Depois,
desligam a TV.

sábado, 31 de outubro de 2009

Um corvo à espreita

não mais
outra vez não
mais outra
vesga vez:
o sempre cega a voz
da entrega em mim talvez
no corpo à risca
de ser nunca
ma(i)s a outra
da vez.