sexta-feira, 9 de junho de 2017

Das lagartas: a moldura se tece

Quando iniciei este blog queria dar a ele uma presença mais dinâmica, informativa, como uma lousa na qual se grudam cartazes e souvenires, opiniões e comentários sobre filmes, exposições, livros, programas de tv, enfim, o que eu pudesse selecionar. Mas, com o tempo, e o tempo é uma dimensão complicada, fui perdendo o foco e transformando este blog num caderno para postar meus poemas. Muitos já foram publicados no meu livro Corpos em Cena, que foi lançado em 2013, sob a edição da Patuá do sempre  incansável  Eduardo Lacerda. Depois parei, cansei de entrar aqui, a vida foi ficando complicada, muito trabalho, muita tarefa, outras preocupações. A poesia, no entanto, segue firme, ou quase (poeta não se contenta com o que faz e viaja entre cantos e desencantos). Mas o exercício do poético segue. E logo terei o prazer de apresentar um novo livro-bebê, meu Moldura de Lagartas. Um livro com uma proposta que se esboça para mim, que estou ainda a escrevê-lo, de ser uma superfície de ondas, que ferem na sua caldalíngua as rochas da pele. Muito difícil precisar a beleza das coisas. É sempre um aprendizado o exercício do olhar. E do escutar. Poesia é som, não me canso de afirmar isso. É canto. É voz que teima, que grita, que sussurra com o ouvido colado ao chão. É imagem também, plástica, alquimia verbal preparada na paleta. E no livro, a lagarta faminta tece seu casulo de signos e despe-se sem pudores de sua capa, aos poucos. 

Bem, já adiantei um pouco daquilo que nem sei ainda como será. Mas será. Minha moldura, feita à mão. E à mão tudo pode sair um pouco borrado. Mas borrada é a vida. Sempre torta. 

Para esta sexta-feira fria de outono junino já me aqueci bastante para a noite que se aproxima, austera e gelada. Ficamos assim por agora: dentro da moldura, vou percorrer a lagarta. Quero tecê-la na sua exuberância e mágica natureza e na sua metamorfose encontrar-me outra. Detesto rotina. Adoro experimentar um sabor diferente. Não me importa a moda. Me importa a onda. É dela que desejo me vestir, sempre nova a cada orla visitada. Gaivota viaja. E sonha.

O violino de Ingres, de Man Ray.
Gaivotando nas formas. E nas curvas.

domingo, 10 de abril de 2016

Sobre o método

Das esferas, dos equilíbrios, do movimento que não se cala diante do pincel. 
Bem que a gaivota quis, mas os frutos fugiam de seu bico sequioso pela polpa doce. No exercício do método  suas asas aprenderam a como acolher a cor liberta entre as penas e a inscrever seu corpo na tela...

Escrevia com os seios colados à mesa. Acomodava-os sobre as linhas do papel. Cuidadosamente. Cada um. Vez em quando se revezavam para as palavras nascentes. E aí exibiam-se pontiagudos no ar para logo em seguida afogarem seus anseios no papel sequioso de suas graças. Esfregavam-se, cingiam-se. Buliam. Não se calavam na sofreguidão dos contornos.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

A sismografia do peito

Meu coração é maior do que as minhas mãos. É mais veloz que minhas pernas. É mais vermelho que a flor mais rubra que minha boca pode alcançar. É mais denso que toda minha carne. Meu coração é uma bomba a explodir cotidianamente no peito, no ventre, nos olhos. E meus ossos perplexos de tantos estilhaços alojam as adagas que protegem sua doce arquitetura e sua avassaladora sismografia. Pela manhã acordo desejando o mundo. E ele bate no meu ventre. E se desaloja nos pulsos. Os hemisférios do mundo e seus vasos linfáticos. Por eles meu coração bate as horas. E apanha.

 A gaivota tem um coração maior que suas asas... Por isso sua vibração é como uma corrente elétrica nas penas. Pelo mundo, ela se agita. E treme. E cai ao solo fatigada de tanta dor.

sábado, 26 de setembro de 2015

o tempo do agora

a gaivota e o olhar: na distância do voo o seu outro olho, aquele que lhe mostra o norte toda vez que se perde nessa ânsia de amar tudo o que vê: alain na ponta da asa aponta o impossível...

O que é do tempo sem o amor ?
Pura rotina. Pura chatice. Pura morte.
Hoje tenho pouco a dizer.
O trabalho diário, em volume que não consigo precisar, tolhe-me a atenção e, às vezes, deixa-me anestesiada.
Mas de repente o coração toca, soa aquela nota, pronunciável apenas na voz recolhida da memória, na do rouxinol esperto, sabido, louco e apaixonado.
Ele me salva desta selva de papéis em massa.
Ele me encanta no doce silvo do sol que me apresenta o centro.
De dentro a flor desabrocha: assim são as asas que me acenam ao longe o tempo do agora.

domingo, 14 de junho de 2015

Notas para o sujeito colírico


A gaivota quase ficou presa nesse emaranhado suspeito de lirismo amordaçado. Amor que é amor tem de ser livre! Essas juras acometeram o sujeito lírico e o deixaram febril... 
Malditas são as juras de amor eterno.

Estava escrito nos laudos da justiça dos críticos de plantão a versão pós-moderna do sujeito lírico: o sujeito líquido sumiu no bojo da taça amiga que tinia ao toque dos dedos. Anacreonte dormia nessa hora.

O contemporâneo escorre pelos dedos do sujeito e pelo asfalto, atinge as galerias e deságua lá onde o crítico já lavou as mãos.

 Epitáfio no túmulo do crítico:
 - "morreu com o sujeito lírico engasgado na garganta".

Noite é foda. Ela não me deixa, sempre retorna com esse sujeito todo lírico de estrelas e que só fala dele mesmo.  O sujeito lírico é suspeito. Todos são. 
- Prendam o tal sujeito! E seu colírico olhar apocalíptico!
- Metam o tal entre grades! A métrica lhe servirá de amarras.

É lírico e está doente. Delira sua fome de tudo e se devora nas palavras que encontra como migalhas amassadas nos guardanapos das mesas do bar. 

Eis as penas do sujeito. Parece um pássaro cujas asas pende ao chão sob a chacota dos que o contemplam nos ares. Mas não há mais ares para o sujeito. Líquido e rarefeito, está preso. Há de reinventar-se ao som da lira que vibra em outra corda. 

Anacreonte suspira. A taça está vazia. O vinho é um rio que escorre pela vaga via láctea. O céu não tem mais estrelas e os arranha-céus cortam os versos e as asas dos pássaros. 

Entre a realidade e a imagem, Manuel Bandeira se espanta. É a personagem do café que olha a morte do sujeito como redenção. 

O sujeito lírico desistiu da vidinha idílica. Sua doença é a sezão que acomete estes tempos de versos sem costura ou arremate. 

Quem tem coragem de ver com olhos livres arregaça as mangas e enfia a cara no chão. O tal sujeito vai ter de cavar com as asas a terra e desentranhar os voos antes de virar pó. 

domingo, 19 de abril de 2015

Mulheres em curvas

Escultura: "volumes sob a luz" (Oswald de Andrade). "O beijo", de Rodin, revela as curvas das pedras no desejo de onda...

Mulheres em curvas
derramam-se em carnes
volumes de tempo
nódulos de nuncas
excessos
de si mesmas.

Nas suas bastanças
ondulam olhares
humores de chuva
ao sol quente

das carnes.

Contemplação

Contemplar, para a gaivota, é mergulhar no abismo do seu ser. Lá encontra a nota que a devolve à melodia do que flui e batiza a areia da carne, os poros das pedras e  religa suas asas ao universo. 


No rosto adormecido de meu amado
Vejo o sol se pôr feliz nos lábios
Entreabertos à palavra do afeto
Que momentos antes murmurara
Como um arrebol. E na amada
Boca vejo ainda a última sílaba
Do desejo umedecido como um verso
Sem forma, sem métrica, despido
Porque, tal cupido, na pele desenha
O arco e a seta em riste guiados
Pelas ondas flutissonantes
Do coração alado dos amantes.


E para tê-lo ainda preso em sonho
Reponho cada beijo seu na face
E dos poros crescem bulbos de flores
Amarilis e tulipas férteis de cores.
E nas mãos recolho em conchas
O pólen dourado de seus olhos
Céu aberto ao canto lúbrico
Das noites que acalentam o úmido
Luar que derrama lento o sono
E o sorriso por sobre o leito 
Vermelho e vivo como um beijo.