domingo, 9 de agosto de 2009

Como fotografar o vazio

Estou aqui a pensar sobre as relações entre a poesia e a fotografia. E queria dividir um pouco essa reflexão com quem aqui estiver por esses dias e achar que pode contribuir um pouco.
Concisão, recorte, montagem, moldura, o fora de campo, relações por semelhança e contraste, enfim, são vários os elementos que posso verificar e conceber como construtores dessa relação, que é compreendida por mim em termos de procedimentos iluminadores de linguagem. Nada a ver com descrição verbal de fotografias. Mas, sobretudo, criação na palavra do instante pregnante da ação, expansão do tempo no corpo e no espaço observado, trazido para o poema pelo dispositivo da memória. A sintaxe mínima, o verso deslocado, a construção metonímica... Moldura que se constrói no espaço encenado, moldura que se abre pelos espaços espacializantes do sentido...
Há um poema de Virna Teixeira, em seu livro Distância (2005), dentre outros que verifiquei, que consegue dar relevo a um traço dessa relação. Construído de forma fragmentária, o poema traz, na sua dicção mínima, a dimensão do vazio como presença que incomoda. Esta consideração já emite um olhar que percebe no elemento cromático, na espacialização dos versos que definem os termos como células isoladas, a expansão do sentido do vazio pelo espaço, que vai ganhando proporções sem medida. Por fim, a ausência metaforicamente construída na estrofe final.
Ei-lo:
Noite
branca, a sala
a cor desta
ausência
teto
inalcançável
sofá, o vulto
imaginário
de um corpo

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Deixe suas pegadas por aqui