domingo, 27 de setembro de 2009

Um corpo em cena


um corpo
em cena
centelha
de sopro

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Deslizando na ponta da faca

Lau Siqueira, como sempre, no seu blog Poesia sim (http://www.poesia-sim-poesia.blogspot.com/), trouxe uma questão provocativa. Acabei respondendo à queima-roupa, nesta manhã de sexta-feira, quando a maresia dos papéis da semana anunciam um sábado e domingo de longas vagas no horizonte... Enfim! A resposta à queima-roupa anuncia para mim um outro texto que virá em breve, pois está no plano da semeadura neste momento. (Um outro amigo me lançou outra provocação recentemente).
"A literatura seria uma espécie de arte visual?" pergunta Lau. O "visual" me levou ao "verbivocovisual" com que os poetas concretos descreviam a poesia na sua natureza. Depois da imprensa a palavra poética não foi mais a mesma no ocidente. Se a poesia já primava pela visualidade com os gregos, sua presença pictórico-gráfica sempre encantou os poetas que se seguiram. O ritmo e a métrica precisaram ser revistos depois que o verso livre acabou entrando em cena (e revendo o espaço) e levando a todos os amantes de poesia a se sentirem poetas nos novos tempos. É claro que eu aqui já estou me encaminhando para outro problema que traz uma ironia de base (e agradeço ao Lau a provocação para me fazer escrever por aqui e por lá). A ironia está no fato de que, depois do abuso do verso livre (ou da sensação de que o verso é livre, será?), é necessário procurar saber o que é o verso metrificado, não pra voltar à tradição enclausurada das regras clássicas, mas para conhecer de perto os caminhos que o verso trilha na performance rítmica e sonora, na visualidade gráfico-espacial que pode ampliar as potencialidades de sua semiose crítica. João Cabral já o informava no rigor criativo com que trabalhava o verso em sua anatomia.
Poesia e literatura trazem um rigor de construção que não surge alhures nem se perde algures, mas que se constrói com base na linguagem, cuja natureza liberta precisa ser conhecida e roteirizada por quem se dedica a essa tarefa de produzir no barro e do barro o que não se perde no meio do caminho, pois o que fica continua incomodando e surpreendendo na superfície da água iluminada da tela do papel. Esta imagem, para quem não sabe, emerge do poema "Esquinas das ruas molhadas", do poeta Frederico Barbosa (Rarefato, 1990, Iluminuras). Vale a pena reler.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Final de linha

É agora José
este caminho torto
esta coluna torta
esta dor e este trago
o idílio que te aparta
daquilo que me habita.
E agora José?

No princípio era o caos

imagens sagradas
rasgadas
em sebo e latim:
lancetadas figuras

de gesso
laca e verniz

A origem de tudo

A aguda serpente finca e dobra o corpo dormente nas tramas da pele fina e branca, linho de algodão, leve no vento e no roçar da fria camada serpentina da agulha que se finca a cada hiato da pele, dócil trama que plasma o leve e a aspereza do toque e se entrega à aguda e violenta investida do seu roteiro de estradas e trilhos a céu aberto.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Por vias desusadas

Ando assim, com Gregório sussurrando nas minhas curvas cerebrais o poema que logo vai, carregando-me junto com ele. "Não é fácil viver entre os insanos" e haverá de "ser louco c'os demais que ser sisudo"... Carpe diem!

Carregado de mim ando no mundo
E o grande peso embarga-me as passadas;
Que, como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.
O remédio será seguir o imundo

Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ornadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.
Não é fácil viver entre os insanos,

Erra quem presumir, quem sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.
O prudente verão há de ser mudo,

Que é melhor neste mundo, ó mar de enganos,
Ser louco c’os demais que ser sisudo.