quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Standing by

E no toque assim
um desconcerto errante
percorre
perfuma
pétala desperta
carmim
gosto encarnado
sem rosto sem risco sem
mim
no galope distante
discorre
perfura
pele em pústulas
e um gosto de marfim
perfuma a nua onda em
lanças onde a sua ânsia
lambe a pura e nua branca
sede
de mim.

sábado, 19 de dezembro de 2009

À Condição Humana (para René Magritte)

Self-portrait, Magritte, 1923.

As obras de Magritte sempre me colocaram em contato com uma condição humana: a de ser uma tentativa de vida, uma interrogação, um abismo, uma seta apontada para um caos vertiginoso e ao mesmo tempo uma promessa. Mergulhada nessas dimensões me arrisquei a traçar uma rota no ar e daí me vi escrevendo o poema para Magritte, que eu ainda não sei e que eu ainda devo reescrever, pois para mim nada está tão acabado, nada persiste, pois as rotas são elípticas e podem nos levar para lugares improváveis e versos imprevistos...


"À Condição Humana" (para René Magritte)

Do ovo o ar-
tista prima
a matéria pura e fina
imitar.
Do que envolve a vida
o plano da asa agita
a oblíqua humana condição
e grita
do retrato o traço
e arrisca
no ar
o ar-
tista.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Por linhas oblíquas

"A incerteza do poeta", De Chirico, 1913.


Acabei deixando pra trás há algum tempo: minhas reflexões sobre poesia, traços que fiz para as aulas, textos sem finalidade aparente, que vieram à mercê do desejo de manifestarem uma voz - a minha - no espaço - o mundo das outras vozes. Encontrei algumas linhas que tracei ao longo do tempo e achei que seria melhor começar por elas. Linhas oblíquas, pra me salvaguardar dos traçados retilíneos e dos equivocados. Enfim!


“O que a poesia ensina é apenas um modo de ver.” Eis uma das frases de Carlos Felipe Moisés, um poeta e crítico literário que conheço e respeito muito e que me faz pensar. A frase está em seu livro Poesia & Utopia: sobre a função social da poesia e do poeta. São Paulo: Escrituras, 2007. P. 15, para quem quiser ler. Aquilo que entrevejo na expressão destacada - “um modo de ver” - traz-me o modo de ver que a poesia me ensinou e ensina a cada vez que me debruço sobre ela, a cada vez que ouso ler sua alma. Parece que seu ser fugidio sempre termina por evitar a aproximação analítica, pois a fruição é algo que não combina com um pensamento racional atormentado pela sistemática do conhecimento que mensura o mundo e o cataloga. A poesia não se presta a isso e se recusa.


Outra coisa ocorre ao tentar aproximar-me. A poesia desentranha o mundo, rabisca-o, rasura-o, torna-o fresta e aresta, ascensão e queda. O mundo não é mais o mundo quando a poesia o arrasta para um cá e um lá, para um dentro e um fora do sujeito. O mundo não é mais o mundo quando a poesia antropofagicamente o devora.


Talvez a porta de entrada para a poesia e que nos leva para aquilo que a própria revela seja a imagem.


Imagem que é difícil precisar, que emerge do encontro entre as palavras e os sentidos, que nascem, por sua vez, do encontro fonomorfosintático das palavras no poema, que se buscam e se repelem de qualquer tentativa sinistra de retorno ao universo do pragmatismo do discurso. A imagem está no intervalo entre um lá e um cá do discurso. Enquanto escrevo por aqui, abro o livro A Espreita (2008), de Sebastião Uchoa Leite, e lá encontro um poema que me parece se situar nessa dimensão da palavra no poema e a criação de um "oco" para onde tudo se projeta e retorna na leitura: "Focos".

Poesia é a sombra

Em guarda atrás de alguém

Ou na frente

Abrindo o caminho

Diminui ou alonga o vulto

Conforme o foco solar

Abre-se ou estreita-se

No jogo hiperrealista

Entre o eu e a margem




sábado, 5 de dezembro de 2009

Semitons

Metade de mim evapora
a outra permanece
tua nódoa
perfume que retorna
fogo-fátuo
memória.