domingo, 6 de dezembro de 2009

Por linhas oblíquas

"A incerteza do poeta", De Chirico, 1913.


Acabei deixando pra trás há algum tempo: minhas reflexões sobre poesia, traços que fiz para as aulas, textos sem finalidade aparente, que vieram à mercê do desejo de manifestarem uma voz - a minha - no espaço - o mundo das outras vozes. Encontrei algumas linhas que tracei ao longo do tempo e achei que seria melhor começar por elas. Linhas oblíquas, pra me salvaguardar dos traçados retilíneos e dos equivocados. Enfim!


“O que a poesia ensina é apenas um modo de ver.” Eis uma das frases de Carlos Felipe Moisés, um poeta e crítico literário que conheço e respeito muito e que me faz pensar. A frase está em seu livro Poesia & Utopia: sobre a função social da poesia e do poeta. São Paulo: Escrituras, 2007. P. 15, para quem quiser ler. Aquilo que entrevejo na expressão destacada - “um modo de ver” - traz-me o modo de ver que a poesia me ensinou e ensina a cada vez que me debruço sobre ela, a cada vez que ouso ler sua alma. Parece que seu ser fugidio sempre termina por evitar a aproximação analítica, pois a fruição é algo que não combina com um pensamento racional atormentado pela sistemática do conhecimento que mensura o mundo e o cataloga. A poesia não se presta a isso e se recusa.


Outra coisa ocorre ao tentar aproximar-me. A poesia desentranha o mundo, rabisca-o, rasura-o, torna-o fresta e aresta, ascensão e queda. O mundo não é mais o mundo quando a poesia o arrasta para um cá e um lá, para um dentro e um fora do sujeito. O mundo não é mais o mundo quando a poesia antropofagicamente o devora.


Talvez a porta de entrada para a poesia e que nos leva para aquilo que a própria revela seja a imagem.


Imagem que é difícil precisar, que emerge do encontro entre as palavras e os sentidos, que nascem, por sua vez, do encontro fonomorfosintático das palavras no poema, que se buscam e se repelem de qualquer tentativa sinistra de retorno ao universo do pragmatismo do discurso. A imagem está no intervalo entre um lá e um cá do discurso. Enquanto escrevo por aqui, abro o livro A Espreita (2008), de Sebastião Uchoa Leite, e lá encontro um poema que me parece se situar nessa dimensão da palavra no poema e a criação de um "oco" para onde tudo se projeta e retorna na leitura: "Focos".

Poesia é a sombra

Em guarda atrás de alguém

Ou na frente

Abrindo o caminho

Diminui ou alonga o vulto

Conforme o foco solar

Abre-se ou estreita-se

No jogo hiperrealista

Entre o eu e a margem




3 comentários:

  1. Luz ou sombra?

    SOLARES

    outra vez
    me ronda a poesia

    agora é assim

    quase uma sombra
    colada em mim

    não

    ela é o sol
    eu,

    a sombra

    Bom te ler. Bjo.

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  2. Nydia, luz ou sombra... a poesia encontra maneiras inusitadas de manifestar sua marca, sua nódoa: "quase uma sombra/colada em mim": é isso ou, como vc tb bem diz de forma acertada: "ela é o sol"!
    Bjs!

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  3. Que lindo!!!
    Postei uma poesia no meu novo blog (só de poesias) que é a tua cara!!!
    Quando vc puder passa para fazer uma visitinha!
    http://poemizando-grega.blogspot.com
    Ah! se vc quiser podemos "vetir" sua página com um belo tema...Aprendi como fazê-lo e te ensino, é muito fácil!
    Um abraço
    Marineide

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