domingo, 31 de janeiro de 2010

Meu olhar inaugura o seu

O poema nasce. Eis que não se sabe como exatamente vem à luz. Mas vem, nascendo aos poucos dos resíduos todos que carrego nas caçambas da memória, sempre fartas. E vem intenso num ritmo interno que se deseja nos sentidos que expande qual um prisma fosse, e inaugura para o outro uma nódoa no brim (meu querido Manuel Bandeira me fica sempre pulsando num lugar especial dessa memória de caçambas...). E eis que, num dia desses, aquilo que era só memória indefinida é cutucada pelo olhar do outro. E  eis que me vem a resposta que não pude evitar.


meu olhar inaugura o seu
pisca o poema sua gota colírio
arrisca o poema sua nódoa
fascínio embate himeneu

domingo, 17 de janeiro de 2010

Entre um lá e um cá

O Império das Luzes, de Magritte, 1954. Pra pensar seguindo adiante nas provocações que os poemas me causaram. O jogo de estilhaços ocupando seus espaços e nos redimensionando o tempo, que já não se mostra seguro, mas visceral enquanto projeção de nossos olhares; um tempo e um espaço que se buscam no olhar do leitor do quadro, que por sua vez se busca internamente no interior do quadro, procurando-se nas dimensões nem tão seguras dos espelhos internos.



Poesia... para quê?

Sempre me sinto motivada a escrever quando leio poemas que me provocam. E escrever a resposta à provocação é algo impossível de controlar. Assim a vida, essa descontrolada que impulsiona a gente para não sei onde e me deixa cair nos fragmentos dos espelhos que estilhaço ao longo do caminho, catando as pedras ousadas e arrebentando-as no meu reflexo que vejo romper adiante de cada passo.

Mas o papo aqui me leva ao encontro de dois poetas que respeito pelo modo como se colocam diante da poesia. E recentemente esse encontro de poemas e olhares, de pedras e estilhaços, encontro crítico, sempre, me trouxe novamente a pensar a poesia no seu "para quê?", muito mais nosso do que dela, pois nossa humanidade frágil por mais que ouse não atinge o orgasmo fatal a que está fadada toda poesia que se nutre do visceral de todo homem e de toda mulher que também ouse. (Aliás, "ousar" é a palavra nesta nova década que inicia "dez"! Fred, essa eu roubei de vc, sorry!)

Ao leitor
aquele de Baudelaire
(Frederico Barbosa)

seus olhos buscando
brincando no meu poema

nu
poema

meu dia buscando
(no ar)
sua leitura minha
do seu meu poema

meus olhos buscando
nos seus

um outro poema.


O que me leva a trazer o poema de Fred aqui é a tal provocação que o próprio poema me revela, seu movimento de estar num aqui e num lá buscando ser, provocando o tal encontro de olhares e leituras, encontro de corpos sensíveis, na letra, no traço do verso,  "nu / poema", no corpo do leitor, seus olhos e sentidos, fragmentados na leitura que se estilhaça no caminho dos "meus olhos buscando / nos seus / um outro poema". 

fragmentes
(Lau Siqueira)


berros de olhar
ecoados no espelho


os dias passam
sem que a vida
      devolva

nenhum
dos pedaços

Lau sempre provoca a gente em seus posts no blog Poesia Sim (http://poesia-sim-poesia.blogspot.com/), pelo menos para quem tem olhos de olhar, se é que me entendem... E lá não tive alternativa senão escrever depois que li seu poema e disse assim movida pelo movimento do encontro meio que indagando para quê é a poesia, meu caro Lau? Para deixar a vida entranhar como caco ecoado de nosso berro, de nosso desterro eterno, porque nenhum lugar é bom demais pra gente, porque olhar para as coisas nos leva sempre adiante, sem a certeza do retorno? A poesia que provoca esse orgasmo fatal tem essa força de se postar frente a essa consciência a que somente ela pode nos conduzir. A consciência da gente eclodir como consciência do outro, como fragmento lançado na imagem acreditada como nossa.

Isto tudo não seria ousar? 

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Entre dedos

Entre dedos

trama desfeita                                             escape de agulha
você

me                                    roça                           me

     so

me

   fagulha

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

À deriva do corpo

Do corpo o sopro
assombra este ponto ponte
para o que antes era terno
para o que antes era pleno
agora tudo em sobras verto
em pesadelos de corpo
à sombra de tudo um pouco
antes do encontro
no campo-ocaso
à luz das carnes
inchadas ao sopro
que assombra este corpo
ponto ponte
para o nada.