domingo, 17 de janeiro de 2010

Poesia... para quê?

Sempre me sinto motivada a escrever quando leio poemas que me provocam. E escrever a resposta à provocação é algo impossível de controlar. Assim a vida, essa descontrolada que impulsiona a gente para não sei onde e me deixa cair nos fragmentos dos espelhos que estilhaço ao longo do caminho, catando as pedras ousadas e arrebentando-as no meu reflexo que vejo romper adiante de cada passo.

Mas o papo aqui me leva ao encontro de dois poetas que respeito pelo modo como se colocam diante da poesia. E recentemente esse encontro de poemas e olhares, de pedras e estilhaços, encontro crítico, sempre, me trouxe novamente a pensar a poesia no seu "para quê?", muito mais nosso do que dela, pois nossa humanidade frágil por mais que ouse não atinge o orgasmo fatal a que está fadada toda poesia que se nutre do visceral de todo homem e de toda mulher que também ouse. (Aliás, "ousar" é a palavra nesta nova década que inicia "dez"! Fred, essa eu roubei de vc, sorry!)

Ao leitor
aquele de Baudelaire
(Frederico Barbosa)

seus olhos buscando
brincando no meu poema

nu
poema

meu dia buscando
(no ar)
sua leitura minha
do seu meu poema

meus olhos buscando
nos seus

um outro poema.


O que me leva a trazer o poema de Fred aqui é a tal provocação que o próprio poema me revela, seu movimento de estar num aqui e num lá buscando ser, provocando o tal encontro de olhares e leituras, encontro de corpos sensíveis, na letra, no traço do verso,  "nu / poema", no corpo do leitor, seus olhos e sentidos, fragmentados na leitura que se estilhaça no caminho dos "meus olhos buscando / nos seus / um outro poema". 

fragmentes
(Lau Siqueira)


berros de olhar
ecoados no espelho


os dias passam
sem que a vida
      devolva

nenhum
dos pedaços

Lau sempre provoca a gente em seus posts no blog Poesia Sim (http://poesia-sim-poesia.blogspot.com/), pelo menos para quem tem olhos de olhar, se é que me entendem... E lá não tive alternativa senão escrever depois que li seu poema e disse assim movida pelo movimento do encontro meio que indagando para quê é a poesia, meu caro Lau? Para deixar a vida entranhar como caco ecoado de nosso berro, de nosso desterro eterno, porque nenhum lugar é bom demais pra gente, porque olhar para as coisas nos leva sempre adiante, sem a certeza do retorno? A poesia que provoca esse orgasmo fatal tem essa força de se postar frente a essa consciência a que somente ela pode nos conduzir. A consciência da gente eclodir como consciência do outro, como fragmento lançado na imagem acreditada como nossa.

Isto tudo não seria ousar? 

5 comentários:

  1. Salve !

    A poesia precisa tocar. Cerebrar é filosofia. Ou não?

    Rsrs

    ResponderExcluir
  2. A poesia toca e requebra nossos neurônios NDORETTO, sempre! Ela tem o cerebral sim e sua filosofia interna, que se faz por vias outras, mais sensíveis aos materiais de que é feita. Senti-la e quem sabe pensar sobre ela talvez seja mesmo o caminho como Roland Barthes afirma. Mas ao senti-la nos projetamos como seres neuronais e pensamos nas articulações internas e externas. Poesia é pra isso? Pra gente viajar de célula em célula e articulando cada centímetro de nossa sede de tudo?
    Bjs!

    ResponderExcluir
  3. A poesia é um baú de espantos, querida Susannah. Principalmente porque a poesia acontece mais no olhar do leitor que nas palavras do poeta.
    Você sempre me ensinando a ser poeta!

    Um beijo!

    ResponderExcluir
  4. Gosto muito do Fred como poeta, e como mestre, aprendi muito com ele em uma oficina que deu aqui na cidade vizinha a minha.

    Mas o Lau Siqueira é que pega na raiz da poesia, o fazer do poema é coisa para exilados.

    ResponderExcluir
  5. Olá Edson! Esse estado de exílio é necessário sim, e ambos os poetas protagonizam exemplarmente no poema esse estar distante das coisas óbvias, fazendo da linguagem o elemento crítico de si própria e do mundo. Aterrisse mais vezes por aqui! Obrigada pelo vôo rasante nestas paragens. Bjs!

    ResponderExcluir

Deixe suas pegadas por aqui