sábado, 20 de fevereiro de 2010

Pele serpentina

ousadia de orquídea
e de aderências
na pele
querenças

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Tela branca

Foto clicada por esta gaivota num pouso longo e demorado em Bourke, Austrália.


Sob o branco
a luz
sombras e curvas
cinema
grafo de peles
e poros
tela branca
nódoas
promessas
girassóis.

Sob a trama
olhospestanas
pele em ondas
e sua voz sob a sombra
cega
ceifa
meus girassóis.

one shot e dois olhares

Há algo de encantador nos sentidos. Mais ainda naquilo que eles adiantam na sua leitura dos índices das imagens que percebem no outro, esse texto que nos olha e que nos procura a cada olhar que depositamos no seu mistério de letra e som. Falo de textos e de gente, de corpo e letra, num desenho que esconde suas contradições, seus oxímoros profundos.

Ando lendo a Fera Bifronte, de meu amigo poeta Claudio Daniel e o que tem me guiado na leitura é a imagem, na sua força e na sua loucura erótica de coreografar uma trajetória de fuga que se encontra em si mesma como labirinto, pois seus grafos de luz e sombra não encontram repouso no fora de campo. Isso me traz a fotografia como o lugar desse encontro maldito do tempo de um olhar, que loucamente, por mais que viaje para fora de suas molduras, seu repouso será sempre um conflito eterno no centro dessa fotografia. Não há maldição pior! Traguei um trecho nessa minha fome de domingos. Ei-lo:

Fera

Fera bifronte.
Insulta-nos, a insaciada,
antes de castrar nossos olhos.
Exala sopro de serpe;
salmodia gritos de gralhas.
Ela, a escamosa.
Ela, a obsediada.
Avança a língua negra de onagro,
que mutila ao lamber
nossos lábios.
Devassa da noite e seu dramatismo,
da noite e seus jogos
marsupiais,
faz do breu uma erótica de lâminas.
[...]"


Esse elo maldito (ou bem dito, com todas as letras do mistério) me encontra com um poema de Lau Siqueira, que num de nossos papos motivadores já me alucinara e que agora está em novo post em http://poesia-sim-poesia.blogspot.com :

nua

vestido rosado
detalhe infame
no decote

sua fotografia
me atravessa
neste momento

perdido entre
a eternidade
o esquecimento


(poema vermelho – lau siqueira)


Enfim! O que pode esconder uma fotografia? Que grafos de luz ocultam aquilo que somente a voz pode revelar? Que corte profundo pode trazer à tona a lâmina do olhar?

Em resposta a essas perguntas e a muitas outras que me faço, vem-me o poema que há muito já me cutucava:


No olho da tela
a lâmina
me enlaça
me lambe
me cega.

Eis a viagem...
Foto clicada por esta gaivota


Uma fotografia é como uma palavra colhida ao vento, pura perdição. Uma memória surge em meio ao tempo perdido, rápida e falsa como as palavras que a emolduram. Frágeis.

Uma fotografia é esquecimento, frágil impressão de luz da retina obliterada pelas formas que passam. Assim a memória do domingo anterior se me aproxima e se esvai em pura sensação.

O tempo da memória seria uma fotografia do tempo? Essa memória que vem, vem plasmada pelo tempo que a tudo imprime sua marca, sua nódoa, sua graça? E essa grafia traria o fora de foco para a cena do agora?


É assim que o tempo me arrasta os traços do que me vem. É assim que as marcas de fora desta moldura imprimem suas digitais de tempo no celulóide de minhas frestas de corpo. O corpo sempre deixa vãos ao longo de tempo, vãos que se deixam abertos para o tempo entrar e flertar com a carne macia, maleável à memória... O tempo... um desgraçado!

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

O sol de Maiakóvski

 
Tradução de Augusto de Campos 

Um dos poemas do ano é "O sol de Maiakóvski". Trago aqui na cuidadosa tradução de Augusto de Campos. Em 14 de abril de 1930, Maiakóvski metia um bala corpo adentro, mandando pro inferno o tudo mais e indo brilhar em outra dimensão. Gente é pra brilhar meu querido poeta, e você virou um sol há 80 anos, mas já era um vulcão na sua trajetória de vida, um apaixonado pela vida universal e um eterno inconformado.