terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

one shot e dois olhares

Há algo de encantador nos sentidos. Mais ainda naquilo que eles adiantam na sua leitura dos índices das imagens que percebem no outro, esse texto que nos olha e que nos procura a cada olhar que depositamos no seu mistério de letra e som. Falo de textos e de gente, de corpo e letra, num desenho que esconde suas contradições, seus oxímoros profundos.

Ando lendo a Fera Bifronte, de meu amigo poeta Claudio Daniel e o que tem me guiado na leitura é a imagem, na sua força e na sua loucura erótica de coreografar uma trajetória de fuga que se encontra em si mesma como labirinto, pois seus grafos de luz e sombra não encontram repouso no fora de campo. Isso me traz a fotografia como o lugar desse encontro maldito do tempo de um olhar, que loucamente, por mais que viaje para fora de suas molduras, seu repouso será sempre um conflito eterno no centro dessa fotografia. Não há maldição pior! Traguei um trecho nessa minha fome de domingos. Ei-lo:

Fera

Fera bifronte.
Insulta-nos, a insaciada,
antes de castrar nossos olhos.
Exala sopro de serpe;
salmodia gritos de gralhas.
Ela, a escamosa.
Ela, a obsediada.
Avança a língua negra de onagro,
que mutila ao lamber
nossos lábios.
Devassa da noite e seu dramatismo,
da noite e seus jogos
marsupiais,
faz do breu uma erótica de lâminas.
[...]"


Esse elo maldito (ou bem dito, com todas as letras do mistério) me encontra com um poema de Lau Siqueira, que num de nossos papos motivadores já me alucinara e que agora está em novo post em http://poesia-sim-poesia.blogspot.com :

nua

vestido rosado
detalhe infame
no decote

sua fotografia
me atravessa
neste momento

perdido entre
a eternidade
o esquecimento


(poema vermelho – lau siqueira)


Enfim! O que pode esconder uma fotografia? Que grafos de luz ocultam aquilo que somente a voz pode revelar? Que corte profundo pode trazer à tona a lâmina do olhar?

Em resposta a essas perguntas e a muitas outras que me faço, vem-me o poema que há muito já me cutucava:


No olho da tela
a lâmina
me enlaça
me lambe
me cega.

Eis a viagem...

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