quinta-feira, 22 de abril de 2010

A Descoberta

Estive em Brasília um dia, depois retornei com outro fôlego e outra companhia. Quem lá esteve em noite de lua cheia, deve ter uivado muito para aquela lua que só lá aparece. Essa lua me desfez os sonhos de antes, criou-me outros, futuros. Gaivota é fera, voltou e a lua veio à terra, na doce companhia de uns olhos. Brasília é isso: perdição. Lá moram os sonhos de antes que me fizeram descobrir que são apenas sonhos quando se levados a sério demais... O poema é um trago desse antes e uma baforada agora. Pura descoberta...
em vertigem solitária insone
Brasília
- lua em brasa -
brilha paira arrisca
no céu onde suspende
em redes
sonhos
de cidade aérea
ar poeira vento
descobre-se nas asas
e voa e plana
insana
sobre mim

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Diálogos íntimos -1

Depois de um longo vôo sem achar repouso, esta gaivota "blasé" espera por um "fiat" e começa a falar com suas penas debaixo d'asa, enquanto tenta fotografar com seus olhinhos a tal luz no fim do túnel...


Ah, sei lá... cansei...

e cansada sigo adiante como uma onda ébria, e tremo, ante as faces do prisma. E vejo, distante, nestas horas ígneas, meu Pedro, que ri da minha insensatez que se derrama em queixas: olho, examino-me a epiderme, e não vejo a sua luz! Será que sou, talvez, um verme?

Ah! sei lá... cansei...

Pedro, não ria de mim. É o silêncio, o cigarro e a vela acesa que me incomodam. Na fuga, olha-me a estante em cada livro que olha: olho do cetáceo que na úmida raiva do oceano bufa. Ah, Pedro, nestas horas ígneas, eu sorvo seu beijo e o haxixe do estio, me envolve como um cheiro, bestial, ao solo quente, como o cio de um chacal...

Vai, Pedro, continua o que eu já sorvi de você, cansei.

E na sala muda, afonamente rufa, Pedro pega carona na asa da rima e paira-me no ar, livremente, e me descreve a paisagem desta hora, como ele a viu nas páginas que virei durante o sonho:

Eu sorvo o haxixe do estio...

E evolve um cheiro, bestial,

Ao solo quente, como o cio,

De um chacal


Distensas, rebrilham sobre

Um verdor, flamâncias de asa...

Circula um vapor de cobre

Os montes - de cinza e brasa.


Sombras de voz, hei no ouvido

De amores ruivos , protervos -

E anda no céu, sacudido,

Um pó vibrante de nervos.


O mar faz medo... que espanca

A redondez sensual

Da praia, como uma anca

De animal.


Pedro parou de falar e agora me olha como um livro que se abre, como uma pálpebra que se sabe, e me pisca como se um cisco entrasse no risco que se abre num círculo que me cobre de sonhos e sabres.