segunda-feira, 31 de maio de 2010

Fim de caso

O tapa na cara veio
como um pesadelo.
Cinco sentidos na palma
como uma salva
de pedras no ventre.

Vence na batalha
o coração desperto
na face erguida
na farsa desfeita
na ponta da faca
qual um sorriso de dentes
à espreita
da próxima vítima.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

eufemismo

Uma metáfora atravessou o coração do meu amor.
Partido, anda por aí com metonímias nos olhos...
Alimenta-me agora com hipérboles nos lábios
enquanto me cochicha onomatopéias atrás da porta.

Flores de pedra

Um gelado vento sul soprou nas asas desta gaivota em vôo suicida para a realidade.


E a branca parede branda crescendo no seu silêncio de pedra assustadoramente lassa e suas táteis pigmentações rugosas fingindo flora assim você assim em cantos e dobras e eu assim umedecida somente tato e nada nem uma leve camada de pele nem o sabor da boca embora ocas intumescências brotando amarelas e sábias e santas no decalque de bordado e unha ferida agora aberta em bicos histéricos contra a parede casta e branca de florações ausentes afonamente assomando na sua escancarada realidade de flores de pedra.


(para F. e Z.
com amor)

domingo, 23 de maio de 2010

Ervada

Gaivota em repouso depois de um pouso triste à beira do Harbour em Sydney, long ago...


Inerte resvalo
em sede e
verbo e
o medo reverte
em valas que enxerto
em campo aberto,
restos,
verbos e ervadas,
uns nadas nenhuns
de tudo um pus
de olhos desertos.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

A certas personagens desvanecidas

Nós:
quase um vago
sopro escasso.

E a janela aberta
e uma vela acesa
e uma quase certa
vesga
quase cega
é terna
e mente e cala
(safada!)
no quase mim
o rasgo e a réstia
de ti.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Paisagem rotunda

O corpo humano me alucina. Suas formas e desenhos na paisagem que percorro nos 480 quilômetros que me separam da cidade onde nasci entorpecem-me o olhar. O balanço das rodas e a massa humana à minha frente. Há fartura e tempo, memória e sonho em cada diâmetro de carne. Há beleza. Há vida. Não consegui me livrar da visão.


Expansão das carnes no branco farto da pele vermelha.
Os poros explodem a carne em tufos. A cava da manga, mole. Debulham-se em nódulos as conchas de crosta dourada na gordura quente da frigideira das ancas. O biquini insiste e desaparece entre as coxas.
Desponta a adiposidade dos dias nos passos abertos das plantas dos pés sempre firmes na areia do tempo. Lá vai rotunda paisagem ao sol. Lá vai ondeando a praia, concorrendo com as rochas, impondo medo ao mar. Duas luas se beijam no compasso do biquini quase efêmero entre as coxas irmãs. Nada é ligeiro na paisagem. O tempo expande e expõe sua farta lembrança de sóis e sonhos de pó. Lá vai o corpo cetáceo unir-se ao sol.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Por uma erótica da língua

A retórica esconde uma erótica. A saber. A língua poética tem seus métodos. E principia por dizer que o poeta é um ser sem pudores. Mete a língua na metáfora que se abre como uma devassa aos sentidos. Com o obsceno par de olhos avança como um lince e no seio da palavra deglute suas mônadas de carne, entorpece com seu líquido som de luzes e opalas e lambe as lentas e ondulosas simetrias de seus nenhures. Palatável, o poeta lavra como uma lontra e desliza por entre os pés dos versos, já embriagados de imagens, suas longas sílabas e dança voluptuosamente os ritmos de sua erótica de facas. A cada golpe um corte, uma cesura, uma dor de lança e sangue no ar. Cromático é o poeta. Não suspira. Rumina sua próxima vítima.

domingo, 2 de maio de 2010

Lance de facas

Poesia não é sentimento.
Poeta não é ser inspirado.
Quem ainda pensa assim que trate de rever os seus conceitos. Sentir... sinta quem lê! É assim que nosso Fernando Pessoa nos alerta para essa coisa de "sentimento" que assola a poesia dos aspirantes a poeta. Aquilo que alguém sente não é poesia: outro alerta de nosso Drummond. Vá procurar a poesia nas palavras da vida, nos sons que emergem, no ritmo e na cor que emanam quando se encontram à roda do olhar que as flagra em completo abandono. Assim pode o exercício poético seguir adiante, honesto e ciente de que nada é eterno, nem mesmo as palavras, que não sossegam, porque não estão cegas (humm isto é de outra mente brilhante da poesia a ensinar o próprio poético: do poeta Frederico Barbosa, a plenos pulmões de verso).

Vai aqui, de mim, um exercício de olhares, numa troca particular e secreta, cuja alegoria nos remete à própria vida:

No prato deserto
o velho recado:
um garfo distenso
descansa perplexo
diante da faca
segura, afiada
de seu próprio intento.