domingo, 2 de maio de 2010

Lance de facas

Poesia não é sentimento.
Poeta não é ser inspirado.
Quem ainda pensa assim que trate de rever os seus conceitos. Sentir... sinta quem lê! É assim que nosso Fernando Pessoa nos alerta para essa coisa de "sentimento" que assola a poesia dos aspirantes a poeta. Aquilo que alguém sente não é poesia: outro alerta de nosso Drummond. Vá procurar a poesia nas palavras da vida, nos sons que emergem, no ritmo e na cor que emanam quando se encontram à roda do olhar que as flagra em completo abandono. Assim pode o exercício poético seguir adiante, honesto e ciente de que nada é eterno, nem mesmo as palavras, que não sossegam, porque não estão cegas (humm isto é de outra mente brilhante da poesia a ensinar o próprio poético: do poeta Frederico Barbosa, a plenos pulmões de verso).

Vai aqui, de mim, um exercício de olhares, numa troca particular e secreta, cuja alegoria nos remete à própria vida:

No prato deserto
o velho recado:
um garfo distenso
descansa perplexo
diante da faca
segura, afiada
de seu próprio intento.

7 comentários:

  1. Ótimo texto! Poderia citar mais uma infinidade de poetas que condenam essa concepção sentimentalista da poesia. O poema é, antes de tudo, um artefato verbal. Inspiração sem transpiração, sem trabalho poético sério e comprometido é uma espécie de novela mexicana da pior qualidade.

    Abraços!

    ResponderExcluir
  2. Pois é, meu caro Marcos... Mas o exercício poético é de difícil compreensão, até por parte das autoridades que administram a Educação e a Cultura em nosso País. Quem são os poetas? Seres lunáticos, a terem os pés voando sem rumo? Enganam-se aqueles que pensam que os poetas são seres iluminados (iluminismo? eita!). Os poetas são seres conscientes do poder plástico que emana das palavras, poder político e visceral que nos revela o amargo e o doce da existência e que nos devolve para nós mesmos aquilo que nos desnuda diante da vida, despudoradamente. E isso tudo o poeta vai encontrar nas palavras, no seu arranjo lúdico, estético e plástico (forma, som, ritmo, imagem), sem meias palavras...
    BJs!

    ResponderExcluir
  3. Perplexo meus olhos fitaram esse exercício. Brilhante! Beijos.

    ResponderExcluir
  4. Mas o próprio texto dialeticamente demonstra que a poesia pode ser sentimento aos olhos e ouvidos do leitor.

    ResponderExcluir
  5. Oi Júlio! De que texto vc fala? Nem o tom do texto metalinguístico afirma que poesia é sentimento. Quando afirmo que as palavras estão aí, abandonadas, estão mesmo, em estado de dicionário, falta o poeta para dar-lhes vida e um novo sentido (e não sentimento). A poesia pode despertar sentimentos no leitor, mas isso não quer dizer que ela seja sentimento. É o que Fernando Pessoa afirma: sinta quem lê! A poesia faz-se expressar por palavras e estas constroem imagens e ritmo e isso não tem a ver com sentimento, mas com seu aspecto material, de som e sentido. É o arranjo entre elas que irá despertar sensações ou até mesmo fazer referências a sentimentos NO leitor, mas não brotam de um sentimento que o autor do poema tenha sobre determinado fato ou situação.
    Bjs! Obrigada por aterrissar por aqui, Volte mais vezes!

    ResponderExcluir
  6. Tão interessantes quanto o poema são teus comentários a respeito da poesia!
    Belos, todos!

    ResponderExcluir
  7. Aprendo tanto sempre por aqui. Leitura diária -e necessária. bjo.

    ResponderExcluir

Deixe suas pegadas por aqui