domingo, 22 de agosto de 2010

Balaio de gatos


Meu balaio é de gatos
assim raros
assim lassos.

Meus gatos gemem
sob as curvas
e se traçam
no asfalto.


Sob as curvas dos balaios
a cidade transa
meus gatos.

Oralidades


entre os lábios
inchados
a língua devora
o grito

oralidades
à luz
das grutas

estalactites
roçando
as curvas

na sua boca
todas
surtam

sábado, 21 de agosto de 2010

roteiros de agosto

Eu sigo os desvãos
de meus cegos anseios.
Sou célula
elétrica.

domingo, 15 de agosto de 2010

Paralelas 2

A poesia desvia
na palavra seu curso
um rio
sem discurso
pedra cabralina
inaugural de toda vida
que se abisma
no caos
e na língua.

A poesia é um crime

A poesia surge de um querer
ser: eis o desejo.
A poesia é um crime
que se comete às claras:
finca na palavra a faca,
sangra na língua o ruído.

Desejo


Eu não quero as vicissitudes da vida.
Quero a morte que ilumina.
Um não-dizer às claras
tudo aquilo que me fascina.

Um crime ao meio-dia.

Exercício 3

A aurora não resistiu.
Abriu as pernas
e botou os raios
para fora.

O sol borrou-se.
De vermelho
arregalou
-se
de vergonha.

A noite sorriu.
Cobriu-se.
Guardou segredos
e vitórias.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Paralelas 1

Amor em firme coração endurecido,

Encontro por duas vezes desmarcado,

Mil torpedos enfurecidos,

Último esporro em sexo embalado.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Exercício 2

Com os pingos nos is
com os últimos óooossss, assim,
acentuados
pra estancar de vez o fato
e dissipar
todas as vírgulas.
Detesto as vírgulas
que se desejam anzóis na garganta;
prefiro as reticências
brotando
um beijo...
na boca...na boca...
ainda na...minha boca
.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Exercício 1

Exercício das facas:
com as faces voltadas
para dentro da carne
doar-se
até que a dor conduza o ato,
até que o fato se consuma,
até que a aguda flor se foda
em talo e folha e ruínas.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Faróis

Embarco a chuva no abraço
e envolvo as ruas
como quem beija as derrotas
vermelhas
nos faróis.