sexta-feira, 29 de outubro de 2010

antes de

você me sabia
muito antes de
eu me conhecer


muito antes de
saber que você
minha sina
estava pronto
pra me ver


você me sabia
muito antes de
eu me convencer


muito antes de
pronta estava


pra tecer
a minha crista
pra vencer
a sua cisma
em me ensinar
a ter você

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Do labirinto um fragmento

"Vou mais uma vez para o mergulho como quem responde ao silêncio. Ou como quem não se esconde do espanto" - Lau Siqueira

Com esta citação, desengesso este blog que resolve trazer para o mergulho necessário o espanto. Estou há dias "stuck in the stacks", que é o lugar onde os livros estão na Sterling Memorial Library de Yale. Lugar frio, labiríntico, silencioso, onde as estantes se projetam ao infinito, como num espelho. É nesse lugar que respondo ao silêncio: abismo em mim projetado e arquitetonicamente construído pelo estilhaço que meus olhos, sem descanso e religiosamente promovem a cada dia, desde que eu, abduzida fui pelas letras vermelhas em caixa alta e corpo cheio do nome do jornal da infância: A GAZETA. (Aliás, gazetear é gostoso quando acompanhada pelos livros.)

O que sobrevive da menina louca e espantada, que lia tudo que lhe caía no colo, é o mosaico de leituras que tenho feito. Um mosaico de um puzzle cuja natureza é por si o fragmento...
O que hoje a poesia deseja não sabemos. Essa é a primeira peça do puzzle. A segunda peça é: para onde ela caminha. Para onde a liberdade de composição da poesia escrita assim no papel deseja ir é uma questão a que não posso responder.
Sei que o elemento prosaico da poesia não é compreendido por muitos poetas, que fazem da sua poesia uma "prosa em versos", cujo tom, de prosa, poderia muito bem ser escrito em linhas contínuas sem prejudicar o ritmo, porque a disposição em versos não primava mesmo por construir um ritmo outro...
A lição de Pound é aprender com os clássicos, não para repeti-los, muito menos para ficar citando um e outro para mostrar erudição tola; a lição de Pound ensina a aprendermos com eles aquilo de que a poesia de hoje carece: caráter poético, rigor, trabalho formal com a palavra, que quer dizer explorar nela o som, o ritmo, o tom, a imagem...
Há muita poesia hoje com cara de afobadinha e prosadeumestaraquinomundosemquererestar, poema-minuto, sabe? sem a consciência do que seja o poema-minuto (Oswald e seus biscoitos), poema que se esvai em menos de um minuto para aquele lugar da consciência que deleta o qeu quer que seja que não seja, entende? Daria pra citar um par de nomes, todos eles conhecidos e publicando, resmungando aqui nos states e lá no meu brasil.
Há uma questão na poesia que incomoda: o demônio do referente. Essa é uma das minhas preocupações também. Como lidar com o referente? Jakobson na linha de frente... Fica pra depois. Hoje mesmo é isto. Compromisso. E termino citando o poema "Grafite" de Lau Siqueira, bem preciso para este momento de improviso de escritura.
morrer é quase
um imprevisto
morro sempre
quando penso
que não existo