segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

silêncio

seu
sil
en
cio
sil
vo
do
ce
do
sol
so
me
de
mim

sábado, 18 de dezembro de 2010

Por um direito à literatura

"Afinidades Eletivas", René Magritte, 1933


Este artigo foi publicado no jornal O Diário da Região, de São José do Rio Preto, edição do Caderno Vida e Arte, do dia 01 de dezembro de 2010.
Hoje eu começo com uma provocação. "Literatura não se ensina". Quando eu li pela primeira vez essa declaração (que não é minha mas do Roland Barthes), fiquei assustada e pensei: o que é essa literatura que se ensina na escola? E mais: o que se quer quando alguém se propõe a ensinar literatura?
Depois do susto, Barthes me tranquilizou quando explicou o seguinte: não se ensina literatura porque ela em si já é tudo, é ela que ensina... Tudo bem, pensei, mas continuei não entendendo. Se a literatura é uma disciplina do Ensino Médio, oferecida muitas vezes separada de outra chamada Língua Portuguesa, ela é objeto de ensino. Ou não?
Fui aprendendo ao longo de minha vida que a história toda é outra. E eu narro assim: a literatura é uma eterna moça adolescente, cheia de vida, rebelde às regras, e que odeia ser encarcerada numa gaiola tal qual um passarinho. .. Ao ver-se presa, fenece aos poucos, cerra os olhos, baixa suas asas e morre. Morte lenta e cruel, diga-se de passagem.
E quem seriam os algozes dessa história? Não precisa ser um gênio para perceber que o sistema dogmático e carcerário da divisão cronológica e linear dos períodos em Barroco, Arcadismo, Romantismo, etc... tem uma boa parcela de culpa, que se reparte com os livros didáticos, que reproduzem em paginas coloridas os caminhos da paixão até o cadafalso, guiados por professores sem o menos senso do que é arte, e que, encapuzados, acionam a alavanca da guilhotina e acabam muitas vezes cometendo a eutanásia.
História violenta essa, não? Mas é assim que nosso ensino de literatura tem sido guiado. Por uma maioria que não entende que a literatura nos devolve a nós mesmos e ao mundo, essa pura referência de realidade que a arte burla o tempo todo, transforma e questiona. Ludicamente ela nos arranca de um estado de estagnação, de conforto absoluto com a mesmice diária, e nos devolve a uma presença única, a uma visão singular das coisas. Faz a gente indagar tudo.
Que maravilha seria um ensino em que todos pudessem aprender com ela, com essa moça cheia de vida e sempre renascendo de si própria! Mas talvez seja essa rebeldia que não se consiga entender. Talvez seja o comportamento dessa moça que nos deixe sem ação. E aí vêm os professores podando e simplificando tudo que é complexo por natureza, fazendo o aluno "entender". Este, coitado, é guiado para não pensar, pois se ele souber que o Barroco trabalha com o claro e escuro, e com o cultismo e o conceptismo, já é sabedor de Gregório de Matos. É triste isso, ver morrer a literatura em meio a jovens tão sedentos de vida! Mastigam eles os restos mortais daquilo que ainda tem vida... fora da escola!
E termino minha história assim:
De dentro pra fora: gesto erótico do leitor, corajoso e sem pudores de encontrar-se nas tramas da linguagem. Um ensino de dentro pra fora: rebelde e único, consciente e lucido. E nós como sujeitos, aprendizes e produtores...
De fora pra dentro: eis o gesto despótico, autoritário, dogmático, cheio de pudores. Um ensino assim , historicista, periodicista, biográfico, produtor das tais "listas de características", nega em nós a nossa inteligência e não nos ensina o poder da linguagem. E nós, simples objetos reprodutores.
Literatura, meus queridos, não se ensina. Literatura não é objeto. Literatura é sujeito e é ela que ensina a gente a se situar no mundo e ser melhor em tudo.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

miniconto

No vôo desta gaivota há lugar para um espaço de sensações. Nas nuvens, a projeção de suas andanças sobre areia, em final de tarde.


Ela tinha sonhos. Ele pesadelos. Ela desejava. Ele retesava. Ela pintava as unhas. Ele afiava as garras. Devoravam-se todas as manhãs.

I'm moving out

I'm moving out of myself
right now
I've come to ask for help
pack all the old memories
put them in boxes and please
light up my candles
sit down
for the last meal
expectations all around
between raw meat and
unforgetful blood

thoughts are climbing the stairs
right now
under the sheets my skin
see those blankets on the floor?
our books under them
our roots under these
words of sharing love
of eternity

I'm moving out of myself
right now
and I need help
to untie my eyes
from this blind room
of mine

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Flagrante delito

expiro e resisto
inalo o abalo

soçobro entre o todo

o sarro
e a saga

uma cobra
macabra
devora minhas horas

respiro o delito
entre as sobras
que rondam

agora

desisto



quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Uma poesia sob poros

(Artigo assinado por mim e publicado na coluna das quartas-feiras do Jornal O Diário da Região, 24/nov/2010, p.3C)

O que pode esconder / revelar um poema? Que grafos de letra ocultam aquilo que somente a imagem pode revelar? Que corte profundo no verso pode trazer à tona a lâmina do olhar? Que olhar é esse que se manifesta como corpo e desejo?

Na natureza da poesia se esconde uma erótica. A saber: a língua poética tem seus métodos. E principia por dizer que o poeta é um ser sem pudores. Acaricia com a língua a metáfora que se abre como uma devassa aos sentidos. Com o obsceno par de olhos avança como um lince, e no seio da palavra deglute suas porções de carne, entorpece com seu líquido o som de luzes e opalas e lambe as lentas e ondulosas simetrias de seus talos de letra. Palatável, o poeta lavra como uma lontra e desliza por entre os pés dos versos, já embriagados de imagens, suas longas sílabas e dança voluptuosamente os ritmos de sua erótica de facas. A cada golpe um corte, uma cesura, uma dor de lança e sangue no ar. Cromático é o poeta. Não suspira. Rumina sua próxima vítima.

A poesia é um crime que se comete às claras: finca na palavra a faca, sangra na língua o ruído. É assim. Poesia não é sentimento. Poeta não é ser inspirado. Quem ainda pensa assim que trate de rever os seus conceitos. Sentir... sinta quem lê! É assim que nosso Fernando Pessoa nos alerta para essa coisa de "sentimento" que assola a poesia dos aspirantes a poeta. Aquilo que alguém sente não é poesia: outro alerta de nosso Drummond. Vá procurar a poesia nas palavras da vida, nos sons que emergem, no ritmo e na cor que emanam, quando se encontram à roda do olhar que as flagra em completo abandono. Assim pode o exercício poético seguir adiante, honesto e ciente de que nada é eterno, nem mesmo as palavras, que não sossegam, porque não estão cegas (e isto é de outra mente brilhante da poesia a ensinar o próprio poético: Frederico Barbosa, a plenos pulmões de verso).

Há algo de encantador nos sentidos. Mais ainda naquilo que eles adiantam na sua leitura das imagens que brotam do cotidiano da gente e se transformam em texto, em verso, e que nos olham e que nos procuram a cada olhar que depositamos no seu mistério de letra e som. Falo de textos e de gente, de corpo e letra, num desenho que esconde suas contradições mais profundas. Assim é a erótica do poema: um deslindar por entre a pele das letras, das linhas dos versos, das palavras na boca da gente; sob os poros da pele se manifesta a criar sensações. Sinta quem lê!

"Sobporos"


noco

rpos

oboc

orpo

osso

pros

dosp

oros

sobp

oros

(Barbosa, Frederico. Cantar de Amor Entre os Escombros, São Paulo: Ed. Landy, 2003)



quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Aventura de gaivota

Uma gaivota não pára. Sempre mira o horizonte procurando novas praias e novas ondas. Numa dessas, esta gaivota pousou numa pedra para descansar, bem próximo de uma ilha e escutou de longe o convite sussurrado pelo vento. Era o editor do caderno Vida e Arte, do jornal O Diário da Região, de São José do Rio Preto, o Igor Galante, que me convidava a escrever uma coluna sobre arte, literatura e poesia, todas as quartas. Tem sido um exercicio maravilhoso esse: escrever para leitores múltiplos sobre um tema fascinante, sem o ranço acadêmico (se bem que algum eco escoe em algum vão que esqueci de fechar nessa minha nova construção arquitetônica... afinal uma coluna tem alguma coisa de clássico!). Espero que apreciem o olhar desta gaivota agitada...