sábado, 18 de dezembro de 2010

Por um direito à literatura

"Afinidades Eletivas", René Magritte, 1933


Este artigo foi publicado no jornal O Diário da Região, de São José do Rio Preto, edição do Caderno Vida e Arte, do dia 01 de dezembro de 2010.
Hoje eu começo com uma provocação. "Literatura não se ensina". Quando eu li pela primeira vez essa declaração (que não é minha mas do Roland Barthes), fiquei assustada e pensei: o que é essa literatura que se ensina na escola? E mais: o que se quer quando alguém se propõe a ensinar literatura?
Depois do susto, Barthes me tranquilizou quando explicou o seguinte: não se ensina literatura porque ela em si já é tudo, é ela que ensina... Tudo bem, pensei, mas continuei não entendendo. Se a literatura é uma disciplina do Ensino Médio, oferecida muitas vezes separada de outra chamada Língua Portuguesa, ela é objeto de ensino. Ou não?
Fui aprendendo ao longo de minha vida que a história toda é outra. E eu narro assim: a literatura é uma eterna moça adolescente, cheia de vida, rebelde às regras, e que odeia ser encarcerada numa gaiola tal qual um passarinho. .. Ao ver-se presa, fenece aos poucos, cerra os olhos, baixa suas asas e morre. Morte lenta e cruel, diga-se de passagem.
E quem seriam os algozes dessa história? Não precisa ser um gênio para perceber que o sistema dogmático e carcerário da divisão cronológica e linear dos períodos em Barroco, Arcadismo, Romantismo, etc... tem uma boa parcela de culpa, que se reparte com os livros didáticos, que reproduzem em paginas coloridas os caminhos da paixão até o cadafalso, guiados por professores sem o menos senso do que é arte, e que, encapuzados, acionam a alavanca da guilhotina e acabam muitas vezes cometendo a eutanásia.
História violenta essa, não? Mas é assim que nosso ensino de literatura tem sido guiado. Por uma maioria que não entende que a literatura nos devolve a nós mesmos e ao mundo, essa pura referência de realidade que a arte burla o tempo todo, transforma e questiona. Ludicamente ela nos arranca de um estado de estagnação, de conforto absoluto com a mesmice diária, e nos devolve a uma presença única, a uma visão singular das coisas. Faz a gente indagar tudo.
Que maravilha seria um ensino em que todos pudessem aprender com ela, com essa moça cheia de vida e sempre renascendo de si própria! Mas talvez seja essa rebeldia que não se consiga entender. Talvez seja o comportamento dessa moça que nos deixe sem ação. E aí vêm os professores podando e simplificando tudo que é complexo por natureza, fazendo o aluno "entender". Este, coitado, é guiado para não pensar, pois se ele souber que o Barroco trabalha com o claro e escuro, e com o cultismo e o conceptismo, já é sabedor de Gregório de Matos. É triste isso, ver morrer a literatura em meio a jovens tão sedentos de vida! Mastigam eles os restos mortais daquilo que ainda tem vida... fora da escola!
E termino minha história assim:
De dentro pra fora: gesto erótico do leitor, corajoso e sem pudores de encontrar-se nas tramas da linguagem. Um ensino de dentro pra fora: rebelde e único, consciente e lucido. E nós como sujeitos, aprendizes e produtores...
De fora pra dentro: eis o gesto despótico, autoritário, dogmático, cheio de pudores. Um ensino assim , historicista, periodicista, biográfico, produtor das tais "listas de características", nega em nós a nossa inteligência e não nos ensina o poder da linguagem. E nós, simples objetos reprodutores.
Literatura, meus queridos, não se ensina. Literatura não é objeto. Literatura é sujeito e é ela que ensina a gente a se situar no mundo e ser melhor em tudo.

3 comentários:

  1. Quando os educadores vão acordar para a função maior da arte? É frustrante ver os mais belos textos fatiados como corpos congelados.
    E, período a período, matam o interesse pela literatura.

    bj

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  2. Não sei o que ensinam na escola. Mas acho que ensinam tristeza. Já li sobre jovens indignados com os livros que são obrigados a ler. Acho que eles tem razão. Sempre os mesmos! Eu como leio e faço o que quero, não posso dar palpite, pois sou a favor do contentalismo, ou seja, tudo aquilo que me deixa contente.

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