quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Uma poesia sob poros

(Artigo assinado por mim e publicado na coluna das quartas-feiras do Jornal O Diário da Região, 24/nov/2010, p.3C)

O que pode esconder / revelar um poema? Que grafos de letra ocultam aquilo que somente a imagem pode revelar? Que corte profundo no verso pode trazer à tona a lâmina do olhar? Que olhar é esse que se manifesta como corpo e desejo?

Na natureza da poesia se esconde uma erótica. A saber: a língua poética tem seus métodos. E principia por dizer que o poeta é um ser sem pudores. Acaricia com a língua a metáfora que se abre como uma devassa aos sentidos. Com o obsceno par de olhos avança como um lince, e no seio da palavra deglute suas porções de carne, entorpece com seu líquido o som de luzes e opalas e lambe as lentas e ondulosas simetrias de seus talos de letra. Palatável, o poeta lavra como uma lontra e desliza por entre os pés dos versos, já embriagados de imagens, suas longas sílabas e dança voluptuosamente os ritmos de sua erótica de facas. A cada golpe um corte, uma cesura, uma dor de lança e sangue no ar. Cromático é o poeta. Não suspira. Rumina sua próxima vítima.

A poesia é um crime que se comete às claras: finca na palavra a faca, sangra na língua o ruído. É assim. Poesia não é sentimento. Poeta não é ser inspirado. Quem ainda pensa assim que trate de rever os seus conceitos. Sentir... sinta quem lê! É assim que nosso Fernando Pessoa nos alerta para essa coisa de "sentimento" que assola a poesia dos aspirantes a poeta. Aquilo que alguém sente não é poesia: outro alerta de nosso Drummond. Vá procurar a poesia nas palavras da vida, nos sons que emergem, no ritmo e na cor que emanam, quando se encontram à roda do olhar que as flagra em completo abandono. Assim pode o exercício poético seguir adiante, honesto e ciente de que nada é eterno, nem mesmo as palavras, que não sossegam, porque não estão cegas (e isto é de outra mente brilhante da poesia a ensinar o próprio poético: Frederico Barbosa, a plenos pulmões de verso).

Há algo de encantador nos sentidos. Mais ainda naquilo que eles adiantam na sua leitura das imagens que brotam do cotidiano da gente e se transformam em texto, em verso, e que nos olham e que nos procuram a cada olhar que depositamos no seu mistério de letra e som. Falo de textos e de gente, de corpo e letra, num desenho que esconde suas contradições mais profundas. Assim é a erótica do poema: um deslindar por entre a pele das letras, das linhas dos versos, das palavras na boca da gente; sob os poros da pele se manifesta a criar sensações. Sinta quem lê!

"Sobporos"


noco

rpos

oboc

orpo

osso

pros

dosp

oros

sobp

oros

(Barbosa, Frederico. Cantar de Amor Entre os Escombros, São Paulo: Ed. Landy, 2003)



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