sexta-feira, 30 de setembro de 2011


Manet olhando, do centro da pintura, a própria arte


do corpo
quero
o centro
o olho
de dentro

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Olho da noite


sem poder falar, apenas toquei a noite com meus olhos


Olho da noite
comboio de sombra
pestana de tempo
mira-me agora
carrega-me onda
sossega este medo

domingo, 25 de setembro de 2011

Reflexões de abajur




Paisagem clicada pela retina desta gaivota em dia de sol quente e saudades no corpo

Esta gaivota anda voando baixo. Tem saudades da terra. Anda pousando num aqui e acolá, como que desejosa de trançar os ventos num ciclone. Um olho só na testa talvez contribuísse. Assim como está, as asas se rompem. Uma vez meus olhos demoraram-se demais nos do vento. A janela nua que flagrara lançou-me  para a perspectiva tortuosa da avenida, em fuga. Como gaivota vestida de naufrágios, mirei a boca que se abria em dádiva. Difícil despir-me desse colete agregado à pele. Mas gaivotas se lançam como seta ao sabor do arco de seus desejos. Naufragar novamente parece cumprimento de sina. Novamente vem, como acorde, a melodia em lá bemol numa escala impossível. A dissonância, sempre. 

Poesia, my sweet pitherick, não se escreve. Mas se inscreve na palavra que eu colho na sua boca. Naufragar agora é irremediável. Nem Posseidon pra me salvar. 

sexta-feira, 16 de setembro de 2011


Dos encontros

Descobrindo no contato com a água o que flui como a palma aberta sobre o teclado. Sabe quando os dedos procuram as teclas que se procuram na pauta que se procura nos sons que se perdem no encontro com o corpo? Pois é... é assim a descoberta... ;)
Uma gaivota viaja sempre. Entre um lá e um cá, no intervalo, esse espaço de tensão, vive o outro em si mesma. Vive agora o corpo no tempo que se expande. Sem pressa. 

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Cançãozinha da cuca para o menino pitherick dormir sossegado


Na parede da sala
o cuco encucava.
Estranhava a cara
da cuca que olhava.

A hora passava
e o cuco encucado
procrastinava. E a cuca,
oras, a cuca gozava!

Da negra floresta viera.
Da grave cultura nascera.
No martelo das horas
à madeira pertencera.

Mas o cuco encucado,
martelado no tempo,
acorda e se apruma,
se apruma e assopra
os ponteiros do tempo.

Na cara da sala
o dia raiara.
O cuco com a cuca
entraram na farra.

Cucando daqui.
Cucando dali.
De hora em hora
na asa dedirósea
de uma eterna aurora. 

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Leitura sob o lençol - 2

Encontrara nela a via natural da vida: no primitivo do sorriso, na ingenuidade abestada dos gestos e do olhar perplexo para tanta novidade tão velha pro tempo que não vivera. Tudo isso, para a fera ferida por dentro, era sinal de vida.

A espádua morena da terra, enviesada pela roupa pouco afeita à pele ainda fresca e úmida, esmerava-se por permanecer numa postura ereta. Forçada pela moldura recém-colada, ancorada pela crescente necessidade da luz que se alongava como sombra a seu lado, ela se ensaiava nos passos.

Encontrara nela o líquido que sorvia a cada noite, como água, como seiva, só pra se manter um pouco mais tempo vivo e ereto diante da sorte. A cada lua cheia que brotava certa no ângulo esquerdo da janela noturna, agradecia a mais um ciclo. A natureza se apontava com seus espinhos, mas no vaso da sala aparentava sossego e prisão. Moldura estática do tempo que fora, lembrança do que se tornara. A água de dentro retesada como moringa pra amanhã. Sede aguardada. O sol ao lado pode apagar-se, pensava.

Mas ela sorria e ingenuamente tecia o gosto pleno de uma vida de pintura. Na tela em que se trancara, a vida sorria como tinta.

Sua sede ainda tarda. Na tarde, a janela avança, como uma criança.

Ele se regozija; ela se enfeita.

Venta um vento de salamandras sobre a pele. Em breve, o verde tomará conta. O vaso transbordará pela sala, engolirá tudo. Pele, luz, risada fresca, sede de vida. No buraco da tela, a pintura desbotará.

Mas nada disso se pensa nessa hora. Os sonhos de cada um invisivelmente se notam; egoístas, se escondem no casulo imantado que a vida costurou na pele de cada um.

Confabulando

Esta gaivota desanda suas andanças, dá mil voltas, retorna e de novo avança. Pura dança sem roteiro, ao sabor das nuvens que se desfazem a cada mergulho de bico e popa... O post anterior era pra sair mais certinho, mas empreguicei aqui, emburrei, quis saber não de tanta colagem, copiagem, olhagem, veirificagem. Às vezes a gaivota esprenguiça, fica muda. Gaivota tem pressa de falar logo o que lhe vem à vista. Por isso acontece o empastelamento, até dos pensamentos.

Gaivotinha, quando pisca pra areia e encontra um boto lindo, se desgoverna. Sabe mais não. Eu não sei. Só sei que desejo. Perder-me em mim para te encontrar assim. Puro sonho de outras eras. Primaveras de verão.

Leitura sob o lençol - 1

Leitura inteligente é a que faz a serpente.

À vista de uma bisca
iça e fuzila a c a u d a

ergue a peçonha nos dentes

e fustiga a i n s ó l i t a

destrói-lhe o anzol
farol em espéc
ulos de dor
sorve em cada cromo a sílaba
grito de gata rasteira
fingida fera
palavra em greve
ausente
de sua sina de palavra lida.

Serpente é bicho
que tece rente
leitura entredentes.