quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Leitura sob o lençol - 2

Encontrara nela a via natural da vida: no primitivo do sorriso, na ingenuidade abestada dos gestos e do olhar perplexo para tanta novidade tão velha pro tempo que não vivera. Tudo isso, para a fera ferida por dentro, era sinal de vida.

A espádua morena da terra, enviesada pela roupa pouco afeita à pele ainda fresca e úmida, esmerava-se por permanecer numa postura ereta. Forçada pela moldura recém-colada, ancorada pela crescente necessidade da luz que se alongava como sombra a seu lado, ela se ensaiava nos passos.

Encontrara nela o líquido que sorvia a cada noite, como água, como seiva, só pra se manter um pouco mais tempo vivo e ereto diante da sorte. A cada lua cheia que brotava certa no ângulo esquerdo da janela noturna, agradecia a mais um ciclo. A natureza se apontava com seus espinhos, mas no vaso da sala aparentava sossego e prisão. Moldura estática do tempo que fora, lembrança do que se tornara. A água de dentro retesada como moringa pra amanhã. Sede aguardada. O sol ao lado pode apagar-se, pensava.

Mas ela sorria e ingenuamente tecia o gosto pleno de uma vida de pintura. Na tela em que se trancara, a vida sorria como tinta.

Sua sede ainda tarda. Na tarde, a janela avança, como uma criança.

Ele se regozija; ela se enfeita.

Venta um vento de salamandras sobre a pele. Em breve, o verde tomará conta. O vaso transbordará pela sala, engolirá tudo. Pele, luz, risada fresca, sede de vida. No buraco da tela, a pintura desbotará.

Mas nada disso se pensa nessa hora. Os sonhos de cada um invisivelmente se notam; egoístas, se escondem no casulo imantado que a vida costurou na pele de cada um.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Deixe suas pegadas por aqui