segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

No quarto crescente do olhar

para ricardo
Onde agora o olho
Aberto àquele, claro sonho,
Rosa que se aflora
À revelia desta arbórea
Face que se caça
Na luz que mira a caça,
Olho que desaloja o outro?

Quem me olha quando a mansa
Cor dos seus olhos avança
A rubra face de meu corpo?


sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Caminho percorrido


Ontem eu apenas procurava um endereço antigo em meio a umas cartas também antigas e encontrei o que não buscava. Um eu-mesma que ainda resta em mim nas cartas de um tempo em que a vida se abria como um presente no seu laço enorme de fita azul e papel de seda. Ver-se assim refletida no espelho do tempo me faz pensar no acúmulo de imagens  que têm se sobreposto no caminho percorrido, nos inúmeros laços de fita que desatei e de outros que apertei insuportavelmente. Ainda bem que essa que encontrei nas cartas ainda sobrevive entre os escombros do tempo. É ela que me dá vida nesta vida de tantos desencontros. 

Um dia escrevo essa escrita de laços e de nós. Porque há nós, um eu e você, no desatar e atar de estradas a céu aberto e coração partido.

Foi ele, meu pai, que ensinou esta gaivota
 a escrever com as asas na areia do tempo.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Um caso de amor


Para esta São Paulo de 458 anos,
 a cidade das minhas eternas paixões.

Asfalto fuga e fumaça
Suas trilhas nefastas
Perseguem as minhas
Na prega da saia
No beijo do vento
Na flor descoberta
Vermelha no centro.

Cidade de azuis clandestinos
Couraça de pó e cimento
Me abraça como um noivo
E me lança viadutos adentro.

Me entontece nas curvas
Me sussurra nos trilhos
Encruzilhadas de amor eterno.

É assim que te quero
Na volúpia pneumática das esquinas
Inteira como as avenidas
Da minha Paulista humana loucura.

domingo, 22 de janeiro de 2012

noite nefasta

noite nefasta
ninfas em festa
e um fauno em fuga

Fauno, de Victor Brecheret (dec. 20)
Original na concepção, esta gaivota não conseguiu
deixar de se encantar com a forma arredondada 
colhida na pedra

sábado, 21 de janeiro de 2012

A duas vozes

Meu teclado tem asas.
Te quero preto no branco
lá onde o sol
sustenido
grita um bemol
a menos.

Chagall, Os amantes voadores

Canto de sereia



teu recife me dispara
arrecifes mar adentro


Sede


Reluzente qual um olho
certa de sua visão ferina
a lâmina ácida aglutina
a camada de pele e
unha. Quase cega desfia
o que se aproxima.

Margens opostas na sangria
sua visão voraz libertina
face de faca
felina
espalha sobras e dobras
na calada da retina.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Escrever

Escrever
como um corpo
reclinado na boca
como um sopro
cerzido na sombra


Na fotografia a escritura do corpo está como escultura de uma forma. 
A dicção do olhar se fixa na forma do corpo e a desenha como luz de uma escritura de sombras.
(fotografia de Sebastião Salgado)

domingo, 15 de janeiro de 2012

Entre o crack e a grana

Pomba vagando na barra funda cinzenta dos dias, 
clicada por esta gaivota num voyerismo necessário.

a gana
a gruta
o grito
a rua
e a cigana
fome
gravada na pedra

assalto que asfalta a vida

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Impromptu

sob as colcheias
eu, mínima,
me basto
entre os compassos