sexta-feira, 23 de março de 2012

sevilhanas em paris

sevilhanas em Paris
ensaiam o Sena:
au printemps ao sol encenam

Botticelli e sua primavera de música e dança: 
as asas da gaivota se agitam...

terça-feira, 20 de março de 2012

dos exercícios do olhar


Eis o horizonte de quem não tem medo de olhar: Jan Zwart, o fotógrafo que nos faz voar.

Fios de tempo tecem o espaço: o meu navega, feliz, no horizonte que desatei, em tempo, do seu naufrágio. Mudei de barco. Andar de submarino me sufoca. Nunca mais. Sua fragilidade é feita de aço. A minha, de papel crepom.

Eu remo. Você lamenta. Eu bebo a água salgada. Você procura o abridor de garrafas. Eu nado. Você se agarra no flutuador. Deixo você submerso na memória. Eu me procuro na melodia das gaivotas que sabem, como eu, que os peixes melhores não temem o voo e emergem para respirar. Eles não temem as gaivotas e seguem no seu nado aéreo, ao encontro da minha lucidez.

domingo, 18 de março de 2012

Un regard


Um olhar traz a moldura do espírito que se lança
como palavra no espaço da tela. Turner me entorna...

onde ) ouverte (
oferta aérea
) fenétre de l’esprit (
vacante vaga
palavra  ) ivre (
intacta
ronda-me
cibernética
e assalta? )

"Gaivotas"


Uma gaivota sempre encontra uma saída para outra aventura:
é o horizonte que a alucina e as são as descobertas que a deslumbram. Ser gaivota é 
navegar o sonho e viver o voo 
e encantar-se 
com as descobertas.


"Gaivotas (por Fernando Paixão)
Se a arte das gaivotas consolida um território para os sentimentos, não se pode cair na pieguice de compreendê-las por um buquê de flores aéreas. Seus volteios e maneirismos guardam sim uma haste vertical, a partir dos olhos, mas espetada numa água que só se faz escapar. Água.
Se as gaivotas comovem é porque se mostram indecisas entre o alto das rotas e o refúgio das marés baixas. Há nuvens acima e cardumes embaixo; elas sentem familiaridade com os dois planos e entre eles escrevem uma carta pessoal e única.
Debaixo das primeiras luzes da manhã rabiscam o inquieto conhecimento das rochas próximas e não têm medo de serem frias as águas de um espelho, onde elas devem mergulhar e procurar alimento.
E também faz parte do movimento das gaivotas o respiro dos ares, as asas entregues à intuição de folhagens frescas. Por isso as direções do vôo tanto se assemelham ao elevar e abismar-se da clássica forma de um coração. Ponteiam para o alto, as gaivotas, mas logo encurvam o sentido e o arremetem a uma procura descendente. Muda o interesse ao sabor da linha, mas sem perder o estilo."

da natureza das gaivotas


Ser uma gaivota é um desafio. Vestir-se e alimentar-se dela é mais do que assumir um avatar. É um encontro, de mim comigo, com a que sempre esteve com o olhar atento para o mundo, distante, curiosa. Entregar-se ao voo é abrir-se para a aventura. O voo é planejado, pensado, erguido nas asas, driblado pelo vento, labiríntico na rota, arriscado na aterrissagem. Como dizer a gaivota é um exercício constante. O texto de Fernando Paixão, que segue aqui, me traz um desenho curioso porque vem ao encontro dessa imagem verdadeira como espectro de mim mesma. Quem me conhece que diga se há nas asas desta gaivota esse desenho tatuado... É pra você, leitor querido, que me entrego agora, no espelho, mirando as estrelas, no silêncio do seu olhar.


Eis o que uma gaivota consegue mirar quando se lança ao céu: 
se entrega ao mistério da pintura como se num quadro de Turner aterrissasse...


sexta-feira, 9 de março de 2012

lua nova

Renascer como esta Vênus, de Boticelli, é encontrar-se com a Beleza irmã da Verdade. E nada é mais verdadeiro para uma gaivota que a beleza do voo nu e sincero.

a lua 
está cheia
de ti
a lua
quer 
a mim
nova
mente
nua
de 
ti

terça-feira, 6 de março de 2012

caso grave é

Um tanto amargo o gosto deste The flavour of tears (1948), de Magritte. 

Caso grave é
gaivota sentir saudade


de voar