domingo, 29 de abril de 2012

A lã traça o roteiro dos laços

Enquanto a lã traça o roteiro dos laços, a menina sorri o encantamento do encontro...

O que fui ainda me habita. Por isso as asas. Por isso a terra. E a certeza do pouso certo em terra estranha. E a alegria nata. E a boca aberta. De espanto. E de fome daquilo que desconheço, daquilo que desejo. Sei-me ainda aquela, na ternura com que olha a terra, na abertura com recebe o ar.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

A meta física das horas

Esta gaivota quase sufocou seus olhos ao pousar no ombro da estátua: 
o tempo espacializado deste silêncio é aterrador.

para De Chirico


Me lambem os ponteiros de dentro
como relógios.
O tempo me despe
pelos cotovelos
e ergue-se
clavícula
crânio
grave
sobre os pentelhos.
E os guindastes
na arcada da noite
arregalados
me devoram
como corvos.

Traçado no tapete


Na coreografia do cenário, os traços de luzes encenam o corpo, que se alinha nas suas sensações.


Atrás
a lã se alinha
atrai e lança
(traço em lua)
a linha tensa.


Atrai e lança
a nua lã
a sua lança
em minhas flores
suas sendas.


Atrai e traça
atrás e trança
avança e tece
a lã a lança,
e transa enlaça
a linha e caça
no arco a nua
de minha pura
renda a dança.

sábado, 14 de abril de 2012

curto-circuito

Esta gaivota chamuscou-se todinha. Culpa de Pollock!


curto
circuito
raio
trombeta
na tua corrente
elétrica
me viro
capoto
estopim
de baioneta

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Amor

Chagall e seu Green Landscape levando esta gaivota para além do azul.


sol
em botão
noite adentro
nosso pão

terça-feira, 3 de abril de 2012

Sua voz

Mondigliani, neste Nu Deitado, soube representar a melodia da voz nas curvas da pele que sorri.


Sua voz
ao sol
enla-
ça o mal
de só
sentir.

Distan-
te a luz
do sol
se vai
na voz
que só
me faz
sorrir.




Ave aprendiz

Os amantes, de Chagall: como compreender a entrega e a dor da viagem para o coração do outro? Esta gaivota sabe o que é paixão.

Escondidas nas pernas

minhas perdas:

suas penas

de ave aprendiz.

Voam baixo 

sob os últimos raios

do nosso eterno

olhar cicatriz.

Voam rentes agora e sempre

as penas à pele a sentir

e como presas se rendem

e entre as pernas se perdem

e cantam um não existir.