quarta-feira, 11 de julho de 2012

Comme la nuit qui passe

Magritte novamente, tecendo o que de mais profundo se encontra
 quando encontro no outro o meu próprio corpo.

Porque me despedaço ao longo do dia em imagens que só pouco a pouco se tornam discurso de algo que nem sei, do meu trajeto diário, trabalho que tece a si mesmo, que me alimenta na dose diária da entrega. É assim que me desfolho para me compor inteira a cada dia. Porque a entrega é feita como la nuit qui passe sur les yeux des étoiles.

Entrega

Dos olhos de Magritte, La magie noire (1935), que nos confunde com o universo.


Os olhos segredavam a têmpera familiar no arco das pálpebras e na linha das bochechas. Ganhavam com o tempo uma inevitável conquista: a marca da compreensão. O sorriso vinha posteriormente como que nascendo de dentro dos olhos, conquistando as bordas dos lábios com tanta ligeireza que logo seduzia quem o flagrasse em pleno voo. E os voos eram constantes.
O corpo inclinava-se levemente para a frente, embora o pescoço mantivesse a linha do equilíbrio com que a face acenava para uma serenidade matinal. Parecia que a atenção confundia-se com a entrega. Qualquer coisa que riscasse a superfície do mundo enviesadamente era mergulhado por um sentimento de vontade nesse olhar atento. E cativo. As asas nasciam de um sentir-se presa, não de si própria, mas de um desejo incontrolável de unir-se ao mundo.
A linha do pescoço elevava-se. As pupilas aladas lançavam-se lentas. A melodia das pálpebras desalinhava os mergulhos. A proximidade do passo abria no seio daquele rosto um arco colorido, corrigindo qualquer hesitação que adiasse o risco.
Por entre as folhas das janelas, aquele rosto lançou-se. Corrompeu o espaço, avermelhou os segundos, que observaram cheios de espanto o que ninguém podia. Tampouco ela...