terça-feira, 18 de setembro de 2012

Uma criança que passa

É no limite das pequenas coisas que o olhar se amplia. 
Esta gaivota viveu esse "limite" na fotografia de Mário Peixoto.
Nada mais foi o mesmo.

O olhar perplexo frente às coisas antes consideradas tão simples dava-lhe à face um terror alinhado às rugas, naturalmente dispostas como um pincel nas mãos de um pintor. Envolvida no casulo com que tecera a existência, expunha-se como lagarta sem desejo de asas. Não mais o tempo se abismava como provedor de moinhos a serem derrotados. Apenas a brisa tosca das manhãs eram suficientes para acenar com a possibilidade do pôs-do-sol logo mais. Sem luta ou gravidade. Eis o terror estampado na face retorcida da boca entreaberta à palavra, que se alimentava de sua própria existência como ideia. Eis a síntese empunhada como derradeira resposta à existência. Nada mais importava. Somente esse paladar de vida consumida como breve ligeireza. Pronta como se pintam os lábios após a refeição do tempo. Assim era o olhar que mirava a calçada consumida pelo sol da tarde na risada solta da criança que passava.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

No regresso do verso da cidade avessa

Gaivota teve o coração emudecido quando se deparou com o abraço frio e o olhar fixo que se dirigiam para ela... 
O medo veio logo após...

Toda São Paulo a que volto
me volta,
pálpebras baixas,
uma nuvem vaga.

Toda São Paulo a que volto
deságua
no confronto
a última lágrima.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Sur les yeux de la lune

À Verlaine et aux maudits

Esta gaivota escreveu nas pálpebras aladas da lua... e Alain  mergulhou num voo rasante  na música noturna das notas : os versos encontraram sua pauta, définitivement...

Sur les yeux de la lune
se lève la nuit
les étoiles tapissent
ton âme qui rêve
emplit de tristesse
eveillé,
l'opacité des cieux.