terça-feira, 18 de setembro de 2012

Uma criança que passa

É no limite das pequenas coisas que o olhar se amplia. 
Esta gaivota viveu esse "limite" na fotografia de Mário Peixoto.
Nada mais foi o mesmo.

O olhar perplexo frente às coisas antes consideradas tão simples dava-lhe à face um terror alinhado às rugas, naturalmente dispostas como um pincel nas mãos de um pintor. Envolvida no casulo com que tecera a existência, expunha-se como lagarta sem desejo de asas. Não mais o tempo se abismava como provedor de moinhos a serem derrotados. Apenas a brisa tosca das manhãs eram suficientes para acenar com a possibilidade do pôs-do-sol logo mais. Sem luta ou gravidade. Eis o terror estampado na face retorcida da boca entreaberta à palavra, que se alimentava de sua própria existência como ideia. Eis a síntese empunhada como derradeira resposta à existência. Nada mais importava. Somente esse paladar de vida consumida como breve ligeireza. Pronta como se pintam os lábios após a refeição do tempo. Assim era o olhar que mirava a calçada consumida pelo sol da tarde na risada solta da criança que passava.

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