quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Um romance bem pontuado


Um homem e uma mulher. Entre eles, diante deles, neles: o desejo pelo outro. A leveza desse momento é o ritmo que anima a asa da gaivota. Ela toca, sente, se apruma. O voo é certo. O estudo de um casal, de Egon Schiele, pontua todo o romance como um discurso silencioso.  Como deve ser o discurso amoroso.

Há vírgulas em sua boca. Interrogo suas curvas e os reticentes lábios que se abrem... Agem como travessões a cada lance da língua. Parênteses do meu desejo. Aspas dos meus dedos, que imaginam galgar as suas circunflexas espáduas. As cedilhas de minhas coxas percorrem a doçura das curvas dos meus olhos...

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

noite calada

Escher e sua magia de formas, direções e sentidos. Dobrei várias esquinas e me surpreendi com um mundo de alternativas. Gaivota ama os desvios e as novas rotas. O vento é leve e a lua nasce de um jeito diferente a cada vez...

noite calada
na dobra da rua
uma lua enjaulada

sábado, 10 de novembro de 2012

preposição animal

Porque tudo é uma questão animal, não é Franz Marc?

na balada
agitada
tudo gira
loura gim
tudo gelo
laser rolls
ronda a curta
saia breve
semi longa
noite às sete
notas rasas
vãos de bocas
vara curta
na batuta 
mão se atreve

à dona das brancas bandas

A pintura de um nu é sempre uma descoberta.
Um corpo se revela no movimento compacto de sua arquitetura.
Espanta, assombra, seduz, alimenta.
Esta gaivota se evola nas curvas do outro, como neste "Le grand nu" à Paris, num de seus voos colossais....

entre os dotes
os culotes
entre tantos
os retoques
tecem todos
tantos rostos
tantos lombos
a reboque

de tão vasta
a devassa 
anca vaga
nada e some
entre tantos
os mais peitos
entremeios
de culotes

Poesia, tá.

Aquilo que alisa também rasga, machuca, penetra. 
Man Ray sabia do impacto. Forma boa deforma, 
açula o risco, questiona a onda.
Gaivota é sabida, rasgou-se toda.

Poesia, tá
na roda
na moda
na onda
na rede.
Poesia é peixe?
Poesia é sede?
Poesia tá sempre
viva, margarida,
girassol, flor orquídea?
Poesia no galho
é sabiá, cotovia?
Pois é, seu Décio,
poesia é, eu selo,
monto e assino,
finco a espora na rima
e corto uma metonímia
ao jeito da oficina
de um mandarim.
Poesia é meu
bonitim...