quinta-feira, 25 de abril de 2013

O exato instante

Hopper emocionou a gaivota, que se deixou ficar mais um pouco sob essa luz.

Era assim furtiva no cristalino dos olhos. A curvatura da íris envolvia a carne que já se consumia. Não mirava, depositava. O mundo era um vaso para a sua boca sempre pronta, cujo único trabalho era fecundar com a rotunda obesidade da alma. Cada lance de olhar cristalizava-se num instante lançado no abismo da tarde já amarelada nas folhas que se avolumavam na calçada. Com a vassoura nas mãos regava o asfalto com o vento que seu corpo soprava. As cerdas sempre duras, como dentes. Como tudo, fugia. Como um sorriso depois do cigarro. No exato instante, apagar-se-ia.

Nos caminhos de Pagu

Todas as asas para a liberdade da gaivota!

Na curva do lábio agreste
Deixava livre a maçã
Pestanas caíam à tarde
No canto o sorriso livre
Acenava

meu mundo


É assim que tudo começa, a partir de dentro, para sempre...

tulipas bocas
lobas
de vermelhos seios
ortogonais
tocam
strawberry fields
na fenda palatina
e tudo sangra em sacros
obeliscos e discos
meu mundo
e nada mais

chama

Helmut Newton é um desses artistas fotógrafos que sabem, 
como  as gaivotas, encontrar o que procuram na sua arte do vôo diário.

um beijo
como um isqueiro
me chama

terça-feira, 23 de abril de 2013

ora pombas


. Bosch ajudou a gaivota no vôo e disse que o mundo era assim mesmo, para o seu desespero.

As migalhas? Deixo-as aos pombos, todos bobos, bicando o mais que podem o asfalto. Divirto-me com sua tonteria, sua briga pela migalha mais polpuda. Às vezes trocam delicadezas: "vosmecê faz favor..."; "agradecida D. Padilha"; "que gentileza D. Boniteza"; "conte sempre comigo, meu umbigo, digo, Sr. Pumpilho". Os pombos são criaturas pasmas. Tantas graças rasgadas e nenhuma estampilha de ave se aventura deixar a pequenez dessas criaturas do solo. Ainda bem que os pombos comem as migalhas.

sibila



Gaivota cansou do óbvio e foi aprender como se fazia com Magritte, que logo colocou as cartas na mesa e não quis muito papo não. Gaivota entendeu tudinho e se alfabegamatizou novamente.


Ainda bem que tenho o signo nas mãos e dele me apodero como um cubo mágico que no seu labirinto de possibilidades crava para sempre meus olhos infernais. Qual uma Fênix o lance todo rebrilha sobre brancos de brincos de braguilhas abertas. O punhal na ponta do G em riste. Qual sibila um signo sangra a crisálida: palavra alada leve de sol livre, tão estridente de tão demente. Ainda bem que não temo o signo que tenho nas mãos.

sábado, 13 de abril de 2013

instante pregnante


Sempre o medo a devorar na gente as asas... 
Às vezes as gaivotas se sentem . Às vezes as gaivotas sentem. Às vezes, há gaivotas que mentem.

A carne exposta no vestido exposto de vazios denunciava a armadilha armada atenta. Era toda curvas no movimento pensado. A altura da testa denunciava o centro do seu horror. Lívida a face, negros os olhos, como dois lances de arco em pestanas que não piscavam. Assim caminhava ao longo do corredor. O suor impregnava o solo, o odor ordenhava as paredes, sempre dispostas a cercear o medo. Seu drama era a cena que subia ao palco todas as tardes. A porta desta vez abriu-se rápido às passadas. Ignoraram-na. E ela avançou lenta até a frente. Abriu a bolsa. Olhou o relógio e sua sede tardia. Esvaziou-se nas palavras que entregava sem fé. Presa na armadilha que fizera de si mesma, fechou os olhos e inundou-se do instante. A sala vazia a sua frente apontava o último verso com que no meio do caminho estancara. A pedra que faltava interrompeu a carne, abriu as cortinas e deixou que a luz vestisse seu corpo. Exposta como poça, engoliu-se como pode.

noite cega

A entrega é azul em noites de lua cheia. 
Gaivota fechou os olhos e sonhou.

noite cega
pura entrega
finca e acerta
sua estrela
entre as pernas