terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Resíduos e Remédios

A gaivota roubou Magritte ou Magritte roubou a gaivota?

Eu ando uma ladra de versos. Ultimamente a poesia vem assim a reboque do vivido. Impossível não ouvir um eco de um verso ou outro, tal qual um grilo falante, como que a sussurrar uma verdadezinha. É claro que as lancetadas vêm na diagonal, mas ferem e fazem a gente pensar do mesmo jeito e ao mesmo tempo. Quantas ferroadas terei de levar não sei, mas cada uma anda tecendo um bordado na pele.
          Ando sofrendo de metamorfoses. Deixarei minha capa de derme rosa para uma em tom mais azulado. Dizem que o violeta funciona como escudo. Mas o que conta de verdade são os poros sempre bem abertos como olhos ao meio-dia. Despertos o bastante para esperar o outro, esse ser alucinógeno que chamamos de energia magnética que vem do outro sem perguntar nadinha e, sem mais nem menos, fica trocando elétrons e beijinhos com os pelinhos do braço da gente. Ficar atenta a isso é sinal de longevidade do coração! E não falo de amor não; falo de emoção, de sentir.
          De Valéria Tarelho é que arrebanho aqui uns versos bem sutis e precisos sobre o poder transformador de toda mulher que sente e sabe com a sabedoria de uma “arte sã”:

Homem é um bicho esquisito:
caça, come, joga fora a carcaça.
Mulher tem outro instinto:
escolhe, leva para casa, usa…

e com sobras dos ossos,
faz um par de brincos.

          A mulher que sente e pensa transforma seus resíduos em bracelete, brinco, anel. “Memória se / deseja. O resto, / se ouça ou veja” cantariam também os versos de um poeta amigo, Fred, cuja consciência tátil dos fenômenos se transforma em palavra. Vc sabe... eu sei... a poesia no lugar dos óculos. Sempre que necessário. Ou então, ao sentir, essa voz gritaria, num grito de gruta: “Socorro, alguém me dê um coração, / Que esse já não bate nem apanha. / Por favor, uma emoção pequena, / Qualquer coisa que se sinta, / Tem tantos sentimentos, / ... Deve ter um que sirva. [...]” (Alice Ruiz)
          Ou, então, como uma punhalada, a poesia diz logo de entrada o que as boas famílias não ousam desembrulhar: “difícil convivência: / ele, superego, / eu, superégua”. Adelaide do Julinho é assim: diz logo o que lhe bate nos poros.
          Mas eu falava de metamorfoses. Um desdobrar-se lento. Um exorcismo em camadas. Um querer-se num “parto” de desejo: “é hora / de içar as velas / (a)mar adentro / (gr)ávidas de vento”. (Valéria Tarelho).
O que a poesia deseja? Fatalmente ser esse sentir por dentro, essa memória tresloucada que temos das coisas e que nos vêm como fagulhas e tapas na cara. Talvez ela não deseje tanto, pois apenas, muda, se mostra. Quem deseja é nosso corpo cansado e carregado. E encontra nela um eco que ressoa o que desejamos encontrar. “No verso, sumo do silêncio”, diria um poeta bem esperto nesse jogo de revelar e ocultar os sentidos das coisas, Paulo de Toledo.
Creio que estou perdoada por ser uma ladra de versos nesses momentos de completo abandono do corpo ao movimento da vida. Gritar “socorro!” não basta; mas ouvir esse grito pensado e desenhado de jeito pelo olhar do poeta que já sentiu num momento o asco de ter vivido, a lâmina roçar a pele e gelar os poros, sem dúvida suas pílulas deveriam ser prescritas pelos farmacêuticos da palavra poética nos laboratórios das metáforas, sob o crivo das musas experientes da sabedoria e da beleza. Na bula, o alerta assinado pelo mesmo poeta: “poesia, tudo o que você calar será usado contra você”. Portanto, use sem moderação.