domingo, 19 de abril de 2015

Contemplação

Contemplar, para a gaivota, é mergulhar no abismo do seu ser. Lá encontra a nota que a devolve à melodia do que flui e batiza a areia da carne, os poros das pedras e  religa suas asas ao universo. 


No rosto adormecido de meu amado
Vejo o sol se pôr feliz nos lábios
Entreabertos à palavra do afeto
Que momentos antes murmurara
Como um arrebol. E na amada
Boca vejo ainda a última sílaba
Do desejo umedecido como um verso
Sem forma, sem métrica, despido
Porque, tal cupido, na pele desenha
O arco e a seta em riste guiados
Pelas ondas flutissonantes
Do coração alado dos amantes.


E para tê-lo ainda preso em sonho
Reponho cada beijo seu na face
E dos poros crescem bulbos de flores
Amarilis e tulipas férteis de cores.
E nas mãos recolho em conchas
O pólen dourado de seus olhos
Céu aberto ao canto lúbrico
Das noites que acalentam o úmido
Luar que derrama lento o sono
E o sorriso por sobre o leito 
Vermelho e vivo como um beijo.

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