domingo, 14 de junho de 2015

Notas para o sujeito colírico


A gaivota quase ficou presa nesse emaranhado suspeito de lirismo amordaçado. Amor que é amor tem de ser livre! Essas juras acometeram o sujeito lírico e o deixaram febril... 
Malditas são as juras de amor eterno.

Estava escrito nos laudos da justiça dos críticos de plantão a versão pós-moderna do sujeito lírico: o sujeito líquido sumiu no bojo da taça amiga que tinia ao toque dos dedos. Anacreonte dormia nessa hora.

O contemporâneo escorre pelos dedos do sujeito e pelo asfalto, atinge as galerias e deságua lá onde o crítico já lavou as mãos.

 Epitáfio no túmulo do crítico:
 - "morreu com o sujeito lírico engasgado na garganta".

Noite é foda. Ela não me deixa, sempre retorna com esse sujeito todo lírico de estrelas e que só fala dele mesmo.  O sujeito lírico é suspeito. Todos são. 
- Prendam o tal sujeito! E seu colírico olhar apocalíptico!
- Metam o tal entre grades! A métrica lhe servirá de amarras.

É lírico e está doente. Delira sua fome de tudo e se devora nas palavras que encontra como migalhas amassadas nos guardanapos das mesas do bar. 

Eis as penas do sujeito. Parece um pássaro cujas asas pende ao chão sob a chacota dos que o contemplam nos ares. Mas não há mais ares para o sujeito. Líquido e rarefeito, está preso. Há de reinventar-se ao som da lira que vibra em outra corda. 

Anacreonte suspira. A taça está vazia. O vinho é um rio que escorre pela vaga via láctea. O céu não tem mais estrelas e os arranha-céus cortam os versos e as asas dos pássaros. 

Entre a realidade e a imagem, Manuel Bandeira se espanta. É a personagem do café que olha a morte do sujeito como redenção. 

O sujeito lírico desistiu da vidinha idílica. Sua doença é a sezão que acomete estes tempos de versos sem costura ou arremate. 

Quem tem coragem de ver com olhos livres arregaça as mangas e enfia a cara no chão. O tal sujeito vai ter de cavar com as asas a terra e desentranhar os voos antes de virar pó.